sábado, 4 de setembro de 2010

Batalha da Grã-Bretanha - setembro 1940






Batalha da Grã-Bretanha

Setembro 1940

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Na tentativa de convencer o governo britânico a negociar, após o final das hostilidades no continente europeu, após a derrota do exército francês, em junho de 1940, o Führer Adolf Hitler ameaçava ainda a Grã-Bretanha com um pesado ataque aéreo em preparativo para uma possível invasão por tropas.
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Após o bombardeio – dito acidental – de áreas de London / Londres, a RAF passou a atacar igualmente alvos civis na grande Berlim, o que levou a uma escalada de ataques e contra-ataques que não paralisava a produção militar, mas vitimava a população civil desarmada e desprotegida.
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Em 4 de setembro, Hitler ordenou ataques maciços sobre a capital britânica – ‘para arrasar o moral do inimigo’ – pois o ditador ainda tinha esperanças de ‘negociar’ com os britânicos e assim evitar a guerra em duas frentes (afinal de contas, o interesse dos nazistas era ‘colonizar’ a Europa do Leste, as riquezas da Ucrânia e Rússia).
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Enquanto isso a propaganda oficial continua enganando os cidadãos alemães – principalmente de Berlim – ao alegar que a capital seria protegida contra os ataques da RAF. A imprensa oficial nazista não hesita em denominar dos ingleses de ‘os piratas’ que matavam crianças alemãs. Enquanto silenciava sobre os ataques contra as crianças de Londres.
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Justamente por causa destes ataques, houve um incentivo para que as crianças londrinas fossem enviadas para pequenas cidades, aldeias e fazendas nas áreas rurais, no interior do país, e até nas regiões do norte (Escócia). Assim ao menos as crianças poderiam ser afastadas do inferno da guerra aérea. Os adultos – e as equipes de segurança, incluindo combate ao fogo, e reconstrução, bem como preparação de abrigos – se mantinham na capital, e - diferente do que esperava o ditador alemão - o moral dos londrinos não caiu.
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Abrigados em estações de metrô, em subterrâneos, em adegas, os londrinos souberam confiar na força aérea que, mesmo reduzida, conseguia defender a atacar. Ataques não tão ‘grandiosos’ como aqueles da Luftwaffe – que podia decolar da costa francesa, com caças em apoio a bombardeios – pois a distância até Berlim não permitia aos bombardeios da RAF o apoio de caças.
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Lembrar que nessa luta aérea não apenas pilotos ingleses se destacaram mas também pilotos de outros países da Comunidade britânica (Commonwealth), tais como canadenses, sul-africanos, australianos, neozelandeses, além de aliados, os franceses, poloneses, tchecos, etc. Não apenas de aeronaves precisava a RAF, mas também de pilotos. Os que não morriam, eram aprisionados pelos alemães.

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A superioridade aérea alemã ainda era notável – até meados de 1942, como veremos – mas não eram tão bem coordenada como poderíamos pensar. A vaidade do comandante da Luftwaffe , Goering, como todo autocrata que se preze, não permitia ouvir sugestões de subalternos, de comandantes de outras armas (a coordenação com a Marinha , por exemplo, era péssima. Como fazer então um desembarque anfíbio?)

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A invasão, aliás, para alguns historiadores, é vista apenas como uma ameaça permanente. Outros – como William Shirer – alegam que até 15 de setembro haveria a tentativa de uma invasão – com desembarque de tropas – mas as defesas britânicas impediram. Não descreve a dimensão desta ‘força de invasão’, apenas relata que vários soldados foram internados com queimaduras terríveis. Se soldados – e não pilotos – sofreram ferimentos, rumo ao Canal da Mancha, onde aconteciam os confrontos, é porque o Exército já embarcara tropas. O problema seria chegar ao outro lado. Sem ‘abafar’ a força aérea britânica, não seria possível o deslocamento das embarcações – a Marinha alemã não ousaria tanto.


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Aos ataques contra as cidades – de ambos os lados – estão fartamente documentadas e disponíveis na internet. Mas ainda não deixavam imaginar o que seria uma ‘guerra total’ – o ataque às cidades e aldeias russas, e o ‘bombardeio estratégico’ dos aliados, após 1942. É assim que se assegura a validade do ditado, “quem tem teto de vidro, que não atire pedras.” Na guerra entre os governos imperialistas, quem sofre as consequências é a população civil, o povo, o refém de sempre.



Por Leonardo de Magalhaens




Mais info em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_da_Gr%C3%A3-Bretanha

http://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Britain
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Berlim é bombardeada! (diário de Shirer)




Do
Diário de Berlim
de William Shirer
trad. Alfredo C Machado
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BERLIM, 26 de agosto [1940]

No decorrer da noite passada tivemos o primeiro ataque aéreo de grande envergadura, desde o início da guerra. As sirenas começaram a soar aos 20 minutos de hoje e somente deram o sinal de “tudo limpo” às 3:23 da madrugada. Pela primeira vez os aparelhos da RAF voaram diretamente sobre a cidade e deixaram cair algumas bombas. A concentração do fogo antiaéreo foi a maior que já vi em Berlim, proporcionando um espetáculo surpreendente, embora terrível. E, por mais estranho qeu pareça, todo esse canhoneio foi ineficaz. Nenhum aparelho inglês foi abatido, nenhum foi sequer apanhado pelos feixes de luz dos refletores que riscavam os céus em todas as direções e durante todo o tempo que durou o ataque.

Os berlinenses estão assombrados. Não acreditavam que isso pudesse acontecer. Logo depois do início da guerra, Göring afirmou-lhes que tal fato não seria possível. O marechal blasonou que nenhum aparelho inimigo poderia atravessar as defesas antiaéreas externas e internas da capital. Os berlinenses são criaturas ingênuas e simples. Por isso, acreditaram no que Göring lhes disse. Assim, a desilusão que experimentaram hoje é a maior possível. É preciso ver as caras que fazem para ter uma ideia do fato. Além disso, Göring ainda piorou mais as coisas informando à população, há três dias, que não havia necessidade de se recolherem aos abrigos quando as sirenas começassem a tocar, mas apenas ao ouvir o troar dos flaks mais próximos. A conclusão lógica a tirar daí era a de que não haveria grande perigo durante os bombardeios. Esse aviso fez com que o povo acreditasse que os bombardeios ingleses,e mbora chegassem até os subúrbios, nunca atingiram a cidade propriamente dita. Foi então que, ontem à noite, todas as baterias espalhadas pela cidade começaram a fazer fogo incessantemente, ao mesmo tempo que se podia ouvir o ronco dos aparelhos ingleses bem em cima das ruas. Todas as informações colhidas adiantam que se registrou uma verdadeira barafunda, uma corrida alucinante dos 5 milhões de berlinenses que se precipitavam para os abrigos antiaéreos.

Eu estava na Rundfunk, redigindo a minha crônica, quando as sirenas começaram a soar e quase imediatamente os flaks deram início ao canhoneio. Por um curioso acaso, minutos antes eu estivera discutindo com o censor do Ministério da propaganda sobre as possibilidades existentes de um bombardeio de Berlim. Londres acabava de ser também bombardeada. Era natural, dizia eu, que os ingleses tentassem a represália. Ele riu. Era impossível, afirmou. Havia um número muito grande de baterias antiaéreas em torno de Berlim.

Foi bastante difícil para mim prestar atenção à crônica que escrevia. O canhoneio era particularmente violento nas proximidades da Rundfunk e a janela da sala onde me achava tremia cada vez que uma bateria abria fogo ou que explodia uma bomba. Para aumentar ainda mais a confusão, os guardas encarregados de dar o alarme, metidos nos seus uniformes especiais para combater as chamas, corriam por todo o edifício ordenando aos que ali se achavam que procurassem refúgio nos abrigos. Na Rundfunk, a maioria desses guardas é constituída por porteiros e mensageiros, e desde logo se tornou evidente que procuravam aproveitar-se da autoridade temporária que lhes dava a ocasião. Entretanto, a maior parte dos alemães que trabalhavam naquele momento parecia pouco disposta a apressar-se muito para chegar ao abrigo.
[...]

Hoje o bombardeio constitui o principal assunto das conversas dos berlinenses. Torna-se portanto especialmente divertido observar que Goebbels permitiu que os jornais publicassem somente um comunicado de seis linhas sobre o caso, dizendo que os aparelhos inimigos tinham voado sobre a cidade atirando algumas bombas incendiárias sobre os subúrbios e danificando uma cabana de madeira existente num jardim. Nem uma linha sequer sobre as bombas explosivas que todos nós ouvimos cair. Nem uma palavra sobre as três ruas de Berlim que foram isoladas durante todo o dia de hoje, a fim de impedir que os curiosos pudessem ver os estragos que uma bomba pode fazer. Será bastante interessante observar a reação dos berlinenses ante esses esforços das autoridades em esconder a extensão do ataque. Foi esta a primeira vez que tiveram a oportunidade de estabelecer a comparação entre o que realmente se deu e o que o Dr. Goebbels noticiou. Durante o ataque da noite passada, os pilotos da RAF atiraram também alguns folhetos sobre Berlim, dizendo aos habitantes que “a guerra que Hitler iniciou continuará e durará enquanto Hitler existir”. É uma boa propaganda, mas infelizmente poucas pessoas conseguiram apanhar esse folhetos, que foram atirados em pequena quantidade.
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BERLIM, 29 de agosto

Os aviões ingleses voltaram em grande número durante a noite passada, e pela primeira vez mataram alemães em plena capital do Reich. A relação oficial diz que foram mortas 10 pessoas e feridos outras 29. No Kottbuserstrasse, perto de Tempelhof (que os ingleses provavelmente queriam alvejar) e não muito longe da estação de 50 quilos explodiram sobre a rua, arrancaram a perna de uma guarda contra os ataques aéreos que estava parada à porta de sua residência e mataram quatro homens e duas mulheres que, imprudentemente, apreciavam o bombardeio da entrada de uma casa próxima.

Acho que a população de Berlim está muito mais afetada pelo fato de os aparelhos ingleses terem conseguido penetrar até o centro da cidade sem serem incomodados do que mesmo pelas primeiras vítimas que causaram. Pela primeira vez a guerra veio bater-lhes à porta. Se os ingleses continuaram a proceder dessa forma, o fato terá um efeito tremendo sobre a moral do povo.

Hoje Goebbels modificou inesperadamente a sua tática. Depois do primeiro grande bombardeio de Berlim, a ordem que deu aos jornais foi a de não comentar o caso. Agora ordenou aos mesmos jornais que façam barulho e gritem contra a “brutalidade” dos pilotos ingleses ao atacarem as indefesas mulheres e crianças de Berlim. Todavia, é preciso lembrar que os berlinenses ainda não foram informados dos sanguinários bombardeios de Londres efetuados pela Luftwaffe. A manchete invariável dos jornais de hoje sobre o ataque aéreo da noite passada é uma só: INGLESES ATACAM COVARDEMENTE. E o pequenino Doktor faz ainda com que os jornais martelem nos ouvidos do povo que os aparelhos alemães atacam somente os objetivos militares na Inglaterra, enquanto os “piratas ingleses” procuram atacar, “segundo as ordens pessoais de Churchill”, somente os objetivos não-militares. Não há dúvida de que o povo alemão se deixará embair também por essa mentira. Um dos jornais de hoje chega a um grau extremo de histeria: afirma que a RAF recebeu ordens para “massacrar a população de Berlim”.

Pelo que tenho podido observar no decorrer das última noites – e Göring devia sabê-lo – torna-se perfeitamente claro que não existe defesa contra os bombardeios noturnos. Nem durante a noite de domingo, nem durante a de ontem as defesas antiaéreas de Berlim, provavelmente as melhores do mundo, conseguiram colher um único aparelho inglês na luz de um holofote, muito menos derrubá-lo. O comunicado oficial, sem poder afirmar à população que os canhões antiaéreos conseguiram abater alguns dos aviões quando milhares de berlinenses puderam observar que tal não se deu, anunciou apenas que um dos bombardeiros da RAF foi posto abaixo ao se dirigir para Berlim, além de outro abatido quando regressava de Berlim.
[...]

do
Diário de Berlim
William Shirer
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sábado, 14 de agosto de 2010

A RAF defende a Grã-Bretanha







Agosto 1940

Battle of Britain
Batalha da Grã-Bretanha

A RAF defende a Grã-Bretanha
Em 13 de agosto desencadeou-se o “Ataque das Águias” que foi contido por forte sistema defensivo britânico, com o uso de radares de baixo e longo alcance, em bases instaladas ao longo do litoral sul e sudeste das Ilhas Britânicas.

Os pouco mais de 700 aviões da RAF puderam causar incômodo aos mais de 2 mil aparelhos alemães – numa luta desigual, mas que porovu a superioridade de manobras dos caças ingleses contra a complexidade paquidérmica dos bombardeiros da Luftwaffe.

Em 15 de agosto, três frotas aéreas alemães decolaram em ataque conjunto contra as forças inglesas, com alvos marcados – torres, pontes, bases, hangares – enquanto se 'defendiam' das defesas inglesas, quando os pilotos da RAF conseguiam separar nos ares as formações de caças e bombardeiros alemães. (Os bombardeiros - sem cobertura de caças – são mais vulneráveis...)
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trechos do
Diário de Berlim
William Shirer
trad. Alfredo C. Machado

CALAIS, 15 de agosto (meio-dia)

MAIS TARDE -Enquanto almoçamos, aqui em Calais, ouvimos o roncar dos motores dos aviões que constituem a primeira vaga de assalto da Luftwaffe dirigindo-se para a ionglaterra. Voam a uma altura tão grande que dificilmente se consegue avistá-los – pelo menos a 4.000 metros. Consigo contar ao todo 23 aparelhos de bombardeio, sobre os quais voa um verdadeiro enxame de caças Messerschmidt; a atmosfera está inteiramente clara. Vai ser ótimo dia para os pilotos. [...]

Por volta das 18 horas divisamos 60 aviões de bombardeio – Heikel e Junkers-82 – protegidos por uma formação de uns cem Messerschmitts, voando a grande altura, rumo a Dover. Dentro de minutos podemos ouvir distintamente o troar da artilharia inglesa em torno da cidade, fazendo fogo contra os alemães. A julgar pelo troar do canhoneio,os ingleses devem possuir grande número de flaks de grosso calibre. Ouvimos também outro rumor, este mais profundo, que um dos oficiais supôs ser o da explosão de bombas aéreas. Dentro de uma hora, aquilo que nos dá impressão de ser a mesma formação de bombardeios vem regressando à sua base. Podemos contar apenas 18 aparelhos, dos 60 que passaram pouco antes. Teriam os ingleses abatido os demais? É difícil dizê-lo, pois sabemos que, em geral, os pilotos alemães têm ordem de regressar a bases diferentes daquelas de onde partiram. Parece que o motivo principal que levou o Comando a adotar essa prática é o de impedir que os próprios pilotos venham a conhecer as perdas sofridas.
(...)

BRUXELAS, 16 de agosto

MAIS TARDE -(duas da madrugada) – Só agora é que vou para a cama e os canhões antiaéreos alemães continuam a troar, visando os bombardeios da RAF. O canhoneio começou pouco depois da meia-noite. Não consigo sentir nem ouvir a explosão de bombas aéreas. Desconfio de que os ingleses estão procurando bombardear o aeroporto.

William Shirer
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Em 20 de agosto, Churchill faz outro discurso que ficou célebre, ao elogiar a atuação da RAF nos teatros de operações, sobre os campos de batalha, na cobertura da retirada nas praias de Dunkirk, ou seja, a exaltação dos 'poucos' que salvaram uma Nação inteira.

Pois se a RAF fosse facilmente derrotada, não haveria impedimentos para a real invasão das tropas alemãs aos litorais da Grã-Bretanha em fins de agosto até meado de setembro.
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Churchill Speech The Few (os poucos)
“Nunca no âmbito do conflito humano tanto foi devido por muitos a tão poucos. Todos os corações vão para os pilotos combatentes, cujas brilhantes ações nós vemos (...)

Never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few. All hearts go out to the fighter pilots, whose brilliant actions we see (...)
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Então, de 24 para 25 de agosto algo novo aconteceu. Os alemães sempre disseram ter sido um 'erro', um acidente, o bombardeio de áreas civis em Londres. Além do bombardeio de áreas portuárias na metrópole inglesa, outras áreas de habitação civil foram atingidas. O alegado 'acidente' foi proclamado, pois o Comando alemão não havia decido por atacar alvos civis. Mas os ingleses nunca acreditaram nisso.

Assim, em 25 para 26, aconteceu a represália inglesa. Os aviões da RAF bombardearam a capital alemã, Berlim. Que finalmente sentiu a guerra – a mesma guerra que levava as forças armadas nazistas aos outros países europeus! Com tais ataques se desviando para as capitais, e o povo, os alvos militares ficaram para segundo plano...! Portos, depósito, antenas, hangares, foram deixados de lado, o que deu tempo para a RAF providenciar uma reação após pronta reconstrução, rearmamento de grupos de combate.

Uma 'escalada' de ataques e retaliação que vitimam as populações civis – é o horror de Londres, Coverty, Berlim, Hamburg, Cologne (Köln), Dresde, Hiroxima, Nagasaki, ... Sempre sem escrúpulos e visando abalar o 'moral' do inimigo...

27 de agosto é a data marcada para a invasão da Grã-Bretanha, Operation Sealion, Operação Leão-Marinho, mas o Führer esperava desmoralizar o governo inglês, e assim começar as negociações, o que adiaria a 'invasão' – afinal, a invasão era somente ameaça?

Um fato inesperado, entretanto, salvou as [bases] inglesas da derrota iminente. Na noite de 24 de agosto 170 bombardeiros alemães cruzaram o canal, afim de completar a destruição causada pelos ataques diurnos. Um grupo de aviões se desviou de seu rumo por causa de um erro de navegação e lançou suas bombas em pleno coração de Londres. Os ingleses consideraram que o ataque havia sido intencional e resolveram devolver o golpe. Na noite seguinte, 81 bombardeiros da RAF se internaram na Alemanha e, de surpresa, bombardearam Berlim. O ataque inglês provocou em Hitler uma reação colérica. A 2 de setembro, depois que a RAF tinha realizado novas incursões sobre Berlim, o ditador ordenou a Goering que desfechasse sobre Londres uma ofensiva de represália. Dois dias mais tarde, pronunciou um violento discurso e anunciou que varreria as cidades inglesas da superfície da Terra.
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(fonte: Segunda Guerra Mundial, Ed. Codex, 1965.)

A atacar Londres, os líderes alemães acabaram 'salvando' as bases da RAF – o que possibilitou uma pausa para reconstrução e contra-ataque.

“O dia 10 de julho, quando se iniciaram os ataques contra a navegação no Canal da Mancha é aceito convencionalmente como início da Batalha da Inglaterra; seu auge ocorreu em 15 de agosto, quando a Luftwaffe realizou o esforço máximo da campanha – 1.786 surtidas – tentando aniquilar o Comando de Caças. O dia 15 de setembro assinada, de forma decisiva, o fim da Batalha da Inglaterra. Convém lembrar que Churchill, naquela data, passou o dia inteiro no quartel-general do Grupo de Caças; o alívio que sentiu está gravado em sua lembrança:


“Já eram 16h30 min quando regressei a Chequers: fui imediatamente para a cama, tirar a soneca da tarde. Eu devia estar muito fatigado pelo drama vivido no II Grupo, pois só acordei às 20 horas. Quando toquei a campainha, John Martin, meu principal secretário particular, entrou, trazendo o boletim vespertino com notícias do mundo inteiro. Aqui algo não correra bem; lá houvera algum retardamento; fulano respondera de forma insatisfatória; registraram-se inúmeros afundamentos no Atlântico. “Entretanto”, disse Martin, para finalizar a exposição, “tudo isto foi compensado pela atividade aérea. Derrubamos 183 aviões e perdemos menos de 40”.


Na realidade não haviam sido destruídos 183 aviões alemães (conforme foi divulgado imediatamente) mas apenas 60, com a perda de 26 aviões ingleses e 13 pilotos do Comando de Caças. Mas era o suficiente; o alívio instintivo de Churchill era plenamente justificável pois, no dia 17 de setembro, Hitler adiou a operação Leão Marinho por prazo indeterminado – e as fontes de Informações revelaram este fato a Churchill e aos Chefes de Estado-Maior. Na prática, tratava-se do cancelamento da operação pois o próximo período favorável de lua e maré só ocorreria na segunda semana de outubro. No dia 12 de outubro Hitler cancelou a invasão.
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(fonte: LEWIN, Ronald. Churchill – o Lorde da Guerra. Trad. Cel Álvaro Galvão. RJ, Biblioteca do Exército, 1979)
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por Leonardo de Magalhaens
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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Agosto 1940 - começa a Batalha da Grã-Bretanha






A Batalha da Grã-Bretanha
Battle of Britain

Várias fontes que abordam os ataques aéreos da Força Aérea alemã contra alvos militares e civis nas Ilhas Britânicas, em agosto de 1940. Vejamos.

“A 30 de julho [de 1940], Hitler instruiu pessoalmente a Göring para que colocasse a Luftwaffe em estado de prontidão para o grande ataque, o ‘ataque das águias’, como os planejadores do estado-maior alemão o denominavam. Hitler ordenou que a Luftwaffe se preparasse ‘para destruir as unidades aéreas, as organizações de terra e instalações de suprimento da RAF e a indústria de armamentos aéreos britânica.”

(BISHOP, Edward. A Batalha da Inglaterra. Renes, 1975)



O Sistema Defensivo Britânico

“Em julho de 1940, o comando de caça da RAF contava com uma força de 700 modernos aviões de caça monomotores (Hurricane e Spitfire). O Comando, cujo quartel-general, instalado na antiga mansão de Bentley Priory, poucos quilômetros ao norte de Londres, estava integrado por quatro grupos de caça que tinham a seu cargo a defesa das diversas zonas do país.

O Grupo 10 defendia o sudoeste, o 11 o sudeste, o 12 o centro e o 13 os territórios do Norte e a Escócia. Os Grupos, por sua vez, se dividiam em setores. Cada setor tinha uma base principal, ou estação de setor, que constituía a célula básica de todo o sistema defensivo.”

(“Londres em Chamas”, Segunda Guerra Mundial. Ed. Codex, 1965)


“A 31 de julho de 1940, os chefes da Wehrmacht reuniram-se em Berchtesgarden, a fim de receber do Führer a ordem de ataque à Grã-Bretanha. Estavam presentes o almirante Raeder, os marechais Keitel, Jodl e Brauchitsch, e o general Halder, chefe do estado- maior do Exército.

Raeder tomou a palavra e voltou a expor a Hitler as dificuldades que a Marinha enfrentava para levar a cabo o desembarque, previsto no plano ‘Leão Marinho’. Expôs também as condições climáticas desfavoráveis em que estaria o Canal da Mancha durante o mês de setembro, data prevista para o ataque.”

“Se a Luftwaffe conseguisse, tal como assegurava Goering, aniquilar a RAF dentro daquele prazo, a invasão teria lugar em setembro; caso contrário, seria adiada para maio do ano seguinte.”

“A 1º de agosto, Hitler ordenou a Goering que iniciasse a ofensiva aérea contra a Grã-Bretanha. Sem demora, Goering ordenou aos marechais Kessekring, Sperrle e Stumpff, chefes das Luftflotte (frotas aéreas) II, III e IV, que completassem os planos para levar a cabo o ataque. (...)

Hitler opôs-se ao bombardeio da Capital [London] e Goering ordenou então que a ofensiva se limitasse a destruir a RAF e às suas instalações terrestres, no sul da Inglaterra. Em uma segunda etapa, seriam bombardeados os centros de abastecimento, portos e indústrias, a fim de paralisar a vida econômica do país.

Ficou, assim, determinado o plano de ataque. Nos aeródromos localizados sobre as costas do Canal, na Holanda, Bélgica e França, as esquadrilhas da Luftwaffe receberam as diretivas finais e completaram os seus preparativos. Na ofensiva, batizada com o nome chave de ‘Adlerangriff’ (Ataque das Águias), interviriam três frotas aéreas, em um total de 2.550 aviões.”

(idem, ibidem)




Diário de Berlim
William Shirer

Trad. Alfredo C Machado
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BERLIM, 5 de agosto [1940]

Apesar de todos os comentários sobre a invasão da Inglaterra que se diz que vai ser lançada nos próximos dias, os militares me explicam que a Luftwaffe precisa realizar uma grande tarefa antes de qualquer possibilidade de desembarque de tropas. Aliás, foi exatamente isso que Göring sustentou ainda ontem, num artigo que fez publicar no Voelkische Beobachter, sob o pseudônimo de Arminius, equivalente em latim ao seu primeiro nome Hermann. Nesse artigo, o marechal explicou que a primeira tarefa de uma força aérea é a de conseguir uma completa superioridade no ar com a destruição dos aviões inimigos, dos seus aeródromos, hangares, depósitos de combustível e postos de baterias antiaéreas. Uma vez realizado esse trabalho, diz ele, a segunda parte tem início, com a aviação capaz de devotar a maior parte das suas energias ao apoio das forças de terra. Foi essa a estratégia adotada pelos alemães na Polônia e no ocidente.

Pergunto eu: por que motivo, então, a Luftwaffe ainda não desfechou um ataque em larga escala contra a Grã-Bretanha? Pelo fato de Hitler julgar-se em condições de poder obrigar Churchill a aceitar a paz? Ou será porque os generais ainda não se mostram dispostos a tentar a invasão? Ou porque a RAF é demasiadamente forte para arriscar a Luftwaffe num grande golpe?

[...]
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BERLIM, 13 de agosto

Hoje foi o terceiro dia do grande ataque aéreo em massa contra a Inglaterra. O resultado de ontem, tal como anunciado pela Luftwaffe, foi de 71 aviões ingleses abatidos contra 17 alemães. Esta noite, as perdas do terceiro dia sobem a 69 a 13. cada dia os números apresentados pelos ingleses, segundo a BBC, são exatamente o contrário. Desconfio de que as cifras de Londres são mais verdadeiras. Amanhã devo sobrevoar a zona do Canal, juntamente com outra meia dúzia de correspondentes. Não sabemos se nos levarão até lá para assistir à invasão da Inglaterra, lançada por Hitler, ou se apenas para apreciar os ataques aéreos.



O “Ataque das Águias” foi marcado para 13 de agosto, tendo um ataque preliminar – localização de torres sinalizadoras, antenas transmissoras, hangares – no dia 12. Em ambas as datas houve violenta reação da defesa britânica – mesmo em inferioridade numérica – numa amostra que a derrota da RAF – a Royal Air Force – não seria tão fácil e rápida.

A RAF atuava com aviões Defiants, Spitfires e Hurricanes, num total de cerca de 700, enquanto a Luftwaffe atacava com Stukas, Heikel, Dornier, Junkers, Messerschmitt, num total de 2550 aeronaves. Mas a RAF provou que ‘número’ não define batalhas, nem em terra nem nos céus!
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Por Leonardo de Magalhaens


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Battle of Britain
Videos
http://www.youtube.com/watch?v=cNVVoH9-QH0

http://www.youtube.com/watch?v=uIh6j80mFqM&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=79f8DSNeE3k&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=yXf1bhEEXd0&feature=related


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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Adolf Hitler fala no Reichstag - 19 julho 1940



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Diário de Berlim
W Shirer
trad. Alfredo C Machado


BERLIM, 19 de julho [1940]

Não vai haver uma Blitzkrieg contra a Inglaterra. Pelo menos por enquanto. Hoje à noite, falando perante o Reichstag, Hitler 'ofereceu' a paz. Disse não ver motivo algum pelo qual a guerra devesse continuar. Mas é claro que se trata de uma paz em que ficará com as rédeas do continente nas mãos, como vencedor. Saindo do espetáculo fantástico do Reichstag – que foi o mais brilhante de todos a que assisti – fiquei pensando no que fariam os ingleses. No que diz respeito aos alemães, não existe a menor dúvida. Como manobra calculada com fim de congregá-los para o ataque contra a Grã-Bretanha, foi uma obra-prima. Isso porque, agora, o povo alemão dirá: “Hitler oferece a paz à Inglaterra e não lhe dão nenhuma importância. Ele afirma que não vê motivo pelo qual a presente guerra deva continuar. Portanto, se continuar, a culpa é da Inglaterra”.

Estava pensando em qual seria a resposta dos ingleses, minutos depois de ter chegado à Rundfunk para redigir a minha crônica, quando ouvi a irradiação da BBC, em alemão. E já estava ali a resposta! Era um grande NÃO! Quanto mais pensava no caso, menos motivos encontrava para me surpreender. Para a Inglaterra, uma paz assinada com uma Alemanha colocada na situação de senhora absoluta do continente é impossível. Mais ainda: os ingleses devem possuir os seus motivos para acreditar que podem defender vitoriosamente as suas ilhas, acabando por impor uma derrota a Hitler. Isto porque o próprio Hitler lhes deu um meio fácil de salvar pelo menos alguma coisa. Apenas há um ano e meio em Munich, pude vê-los apegando-se a essa tábua de salvação. Agora o Não da BBC foi perfeitamente enérgico. O locutor ridicularizou todas as atitudes de Hitler. Vários oficiais do Alto comando e funcionários do Ministério que se achavam na sala não podiam acreditar no que ouviam. Um deles não se conteve e gritou-me: -Está entendendo alguma coisa? Por acaso, pode compreender esses ingleses malucos? Rejeitar agora uma proposta de paz? - Limitei-me a resmungar qualquer coisa. -eles estão loucos? - gritou o oficial.

Hitler apresentou a sua 'oferta' de paz de maneira muito eloquente, pelo menos para os alemães. Disse ele: - Neste momento, sinto que é meu dever perante a minha própria consciência apelar uma vez mais para a razão e o bom senso. Não posso descobrir um motivo pelo qual esta guerra deva prosseguir.

Não houve nenhum aplauso, nenhuma ovação, nenhum bater das pesadas botas. Apenas um grande silêncio. E um ambiente carregado. Porque, no íntimo, os alemães hoje anseiam pela paz. No meio desse silêncio, Hitler continuou: -Sinto-me entristecido ao pensar nos sacrifícios que a guerra vai exigir. E gostaria de evitá-los para o bem do meu povo.

O Hitler que vimos esta noite no Reichstag era um Hitler vencedor, cônscio da sua posição, que mesmo assim soube ser um ator tão maravilhoso, tão magnificamente senhor da alma alemã, que conseguiu misturar soberbamente a confiança do vencedor com a humildade que sempre causa bom efeito junto às massas, quando estas sabem que existe um homem ao leme. [...]

Mais uma vez notei também de que forma Hitler é capaz de mentir com uma impassibilidade que nenhum outro homem possui. Provavelmente algumas dessas mentiras não são propriamente mentiras para ele, que acredita fanaticamente nas próprias palavras, como por exemplo, a sua falsa recapitulação dos últimos vinte e dois anos e a sua constante reafirmação de que a Alemanha nunca foi realmente derrotada na Grande Guerra, e sim apenas traída. [...]

Nota minha:

Interessante. No discurso de Hitler há três menções nominais ao primeiro-ministro britânico Churchill, e nenhuma menção, citação ou referência aos Estados Unidos da América. Justamente o país no qual o governo da Grã-Bretanha depositava toda a confiança – a GBR não poderia continuar a guerra sem apoio dos EUA – isto era óbvio.

Resumo: basicamente o ditador alemão faz um 'apelo a razão' ao Governo britânico, pois não pretende intensificar a guerra ao atacar a Grã-Bretanha e seu Império mundial. A obstinação da GBR se deve às esperanças de envolvimento de intervenções dos EUA e/ou da URSS – o que tornaria a 'guerra europeia' GBR X III Reich numa 'guerra mundial' Eixo X Aliados. (O que aconteceria em 1941/42)

No mais, Hitler aproveitou para demonstrar poderio militar, ao elevar Göring à Reichsmarschall e outros 12 generais a GeneralFeldmarschall (von Brauchitsch, Kesselring, Keitel, von Kluge, von Leeb, von Bock, List, von Witzleben, von Reichenau, Milch, Speerle, von Rundstedt), como diz, sarcasticamente, W Shirer, em seu diário, “a certa altura, parando em meio ao discurso que estava pronunciando, Hitler transformou-se num outro Napoleão, criando com um simples movimento de sua mão (neste caso, a saudação nazista) doze marechais-de-campo. Como Göring já era um deles, o Führer criou-lhe um posto especial – o de Marechal do Reich.” (19 de julho)

BERLIM, 20 de julho

Até agora não se registrou nenhuma reação oficial inglesa à “oferta de paz” de Hitler. No entanto, Goebbels obrigou a imprensa local a fornecer amavalmente ao povo alemão a notícia de que, aparentemente, os ingleses ainda nãotiveram tempo para isso. Os alemães com quem falei não podem compreender essa atitude. Eles desejam a paz. Não querem passar um novo inverno da mesma forma que o último. Não têm nada contra a Grã-Bretanha, a despeito de toda a campanha provocadora. (É que, da mesma forma que um remédio aplicado com muita frequencia, ela também está perdendo a pouca força que possuía.) Acreditam que alcançaram o ponto máximo e acreditam também que podem derrotar a Inglaterra se chegarem a um encontro. Mas prefeririam a paz.

Em Chicago, Roosevelt foi novamente escolhido para candidato democrático, para tentar um terceiro período presidencial. O fato representa um golpe para Hitler, que a Wilhelmstrasse mal pôde ocultar. Goebbels deu ordem aos jornais para que não comentassem o fato, permitindo entretanto que a DNB publicasse um breve despacho do seu correspondente em Washington, dizendo que os métodos pelos quais foi feita a escolha de Roosevelt foram severamente condenados por todas as testemunhas”.

Agora Hitler terá que esperar que Roosevelt seja derrotado por Willkie nas próximas eleições. A verdade é que Hitler receia Roosevelt. Está começando a compreender que o apoio do Presidente à Grã-Bretanha constitui um dos motivos principais que levaram os ingleses a declinar a espécie de paz que ofereceu. Tal como o redator-chefe do Frankfurter Zeitung, Rudolf Kircher, teve licença para publicar amanhã: “Roosevelt é o pai das ilusões inglesas na guerra atual. Talvez os vergonhosos expedientes de Roosevelt sejam demais para os americanos, talvez ele não seja eleito, talvez, depois de reeleito, seja levado a cingir-se estritamente ao programa de não-intervenção do seu partido. Mas é também perfeitamente claro que, ao mesmo tempo em que não intervém na luta com a sua Esquadra ou o seu Exército, intervirá com os seus discursos, as suas intrigas e a poderosa propaganda que porá à disposição dos ingleses.”
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Diário de Berlim
W Shirer
trad. Alfredo C Machado


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por Leonardo de Magalhaens

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Churchill's Speech - 14 July 1940







Em 14 de julho de 1940...

Discurso de Churchill em prol da unidade britânica

“Cinco dias antes, em 14 de julho, às nove horas da noite de domingo, Churchill fizera ao rádio um discurso para o povo da Inglaterra, quase um mês depois de seu discurso da “hora mais gloriosa”. Sob muitos aspectos, esse discurso foi mais revelador de Churchill do que o anterior, mais famoso. Ele pronunciou palavras tocantes a respeito dos franceses, no dia de seu feriado nacional. (“Proclamo minha crença de que alguns de nós viveremos para ver um 14 de julho em que uma França libertada mais uma vez se rejubilará em sua grandeza e sua glória.”) Havia um toque de magnanimidade em suas frases sobre o que acontecera em Oran. (“Quando se tem um amigo e camarada ... atingido por um golpe estonteante, é preciso assegurar que a arma que caiu da mão dele não seja acrescentada aos recursos do inimigo comum. É preciso, porém, não guardar rancor por causa dos gritos de delírio e gestos de agonia do amigo.”)(1) Ele exortou o povo inglês. (Se o invasor viesse, “o povo não se dobraria submisso a ele, como vimos, com tristeza, em outros países.” )

(1) no original, “ When you have a friend and comrade at whose side you have faced tremendous struggles, and your friend is smitten down by a stunning blow, it may be necessary to make sure that the weapon that has fallen from his hands shall not be added to the resources of your common enemy. But you need not bear malice because of your friend's cries of delirium and gestures of agony.”

Isso foi no mesmo dia, talvez na mesma hora, em que Hitler assinou a Diretriz n 16 para a invasão da Inglaterra. Eis aqui outro daqueles “trocadilhos espirituais”, uma coincidência indicativa que talvez haja constituído o ponto culminante do duelo: Hitler aprontando-se para partir da europa e invadir a Inglaterra; Churchill fazendo, na Inglaterra, seus primeiros planos para libertar a Europa.” (pp. 161-63)

(LUKACS, John. O Duelo Churchill X Hitler. Trad. Claudia Martinelli Gama. 2002)
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Em 16 de julho : Hitler decide aprovar a Operação Leão-Marino [Unternehmen Seelöwe]

“A sorte estava lançada. Estava mesmo? O fraseado da Diretriz nº 16 refletia bem a mente de Hitler. (Talvez se deva a isso a mudança do título de “Operação Leão” para “Operação Leão Marinho” - “Seelöwe” em alemão – fera não feroz.) A diretriz começava: “como a Inglaterra, apesar de sua deplorável situação militar, não mostra sinais de estar pronta para chegar a um acordo, decidi preparar uma operação de desembarque contra a Inglaterra e, se necessário, executá-la.” se necessário: ele ainda esperava não ter de fazê-lo. “O objetivo dessa operação é impedir que a ilha-mãe inglesa continue a fazer guerra contra a Alemanha e, se necessário ocupá-la completamente.” seguiam-se as diretrizes de toda a operação (a principal delas era “uma travessia de surpresa numa frente ampla de aproximadamente Ramsgate a oeste da ilha de Wright”). Os preparativos da operação têm de estar prontos em meados de agosto.” A Diretriz nº 16 não continha quase nenhuma retórica. O texto de quatro páginas estava repleto de detalhes técnicos militares. Sete cópias foram feitas e distribuídas entre os mais altos comandantes do exército, marinha e Luftwaffe”( p. 161)

Nota minha:

Em “Hitler” de J Fest encontramos um trecho revelador, “Não está de todo excluído que Hitler jamais tenha levado seriamente em consideração o desembarque em solo inglês e que se aproveitou disso apenas como uma arma na guerra de nervos.” (p. 757)

Em “Churchill – O Lorde da Guerra”(1973), de R. Lewin, encontramos algo sobre a mesma 'indecisão',

“De início, Churchill não poderia saber que Hitler, surpreendido pela velocidade com que atingiria o Canal da Mancha, não dispunha de plano para a invasão, ou nem mesmo tencionava realizá-la; pelo contrário, ideia original do Fuehrer era preservar a Grã-Bretanha e o império dentro de uma forma conveniente de neutralidade. A ordem preliminar do OKW, intitulada “A guerra contra a Inglaterra” só foi expedida por Keitel no dia 2 de julho. Principiava assim: “O Führer e Comandante supremo decidiu... que é possível desembarcar na Inglaterra, desde que possa ser alcançada a superioridade aérea e que sejam satisfeitas outras condições indispensáveis.” Além disto, decorreram quinze dias até a data em que Hitler endossou e ampliou esta ordem, através da Diretriz nº 16, ainda experimental e que principiava assim: “Decidi começar a preparar uma invasão da Inglaterra e executá-la, se necessário.” Não há dúvida que a diretriz primava pela indecisão.” (p. 63)
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por Leonardo de Magalhaens
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sábado, 3 de julho de 2010

Ataque britânico à frota francesa em Oran



Churchill ordena o afundamento da frota francesa em Oran

3 de julho de 1940
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trechos de algumas fontes:
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“A 3 de julho, enquanto Hitler ainda esperava um sinal de conciliação, ele [Churchill] manifestou mais uma vez sua inflexibilidade, dando ordem à frota inglesa para abrir fogo contra os aliados da véspera, isto é, contra as embarcações franceses refugidas no porto de Orã. Estupefato, decepcionado, Hitler protelou sine die seu discurso ante o Reichstag, previsto para 8 de julho. Na exaltação da vitória, achara antecipadamente que os ingleses renunciaram a um combate que ele [Hitler] imaginava sem saída, ainda mais que continuava sem qualquer intenção de tocar no império deles [dos britânicos]. Mas Churchill provou claramente, multiplicando os gestos demonstrativos, que não haveria negociações.” (FEST, Joachim, “Hitler”, 1976, pp. 755/756)
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“O povo está discutindo a ação de ontem dos ingleses, afundando três couraçados franceses na baía de Oran para impedir que viessem a cair em mãos dos alemães. Os franceses, que desceram a um ponto abaixo de qualquer imaginação, declaram que vão cortar as suas relações com a Grã-Bretanha. Afirmam que têm confiança na palavra de Hitler, que prometeu não lançar mão da Esquadra Francesa contra a inglaterra. Coitados! No entanto, éprovável a eclosão de uma grande irritação por toda a França. Positivamente, a Entente Cordiale está morta.” (SHIRER, W. “Diário de Berlim”, 1941, p. 136)
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“Os navios de guerra franceses mais modernos, o Dunkerque, o Strasbourg, o Richelieu e o Jean Bart, estavam fora do alcance de Hitler. Os dois primeiros, os mais modernos cruzadores de batalha, juntamente com um conjunto de outros navios, encontravam-se na base naval de Mers-el-Kebir, na Argélia francesa, quase cinco quilômetros a oeste de oran. A Operação Catapulta de Churchill tinha-os como alvo. Ele também tinha outro plano, a Operação Susan, um desembarque britânico no Marrocos francês. Seus conselheiros navais e militares persuadiram-no a abandonar o plano, pois exigiria uma desnecessária dispersão de forças britânicas no momento em que a ilha natal mais precisava delas. Como de costume, Churchill se irritava com os conselhos acauteladores, mas depois cedia. (Foi melhor assim: um desembarque britânico no Marrocos, mesmo se bem-sucedido – e isso era questionável – poderia ter instigado Hitler – e Franco – a persegui-los, tendo como provável resultado a conquista de Gibraltar e o fechamento do Mediterrâneo para os britânicos.) A própria Operação Catapulta constituía de certo modo uma reminiscência da destruição cruel e inesperada, por Nelson, da frota neutra dinamarquesa em Copenhague em 1801. havia, porém, uma diferença. Nelson atacou um inimigo potencial da Grã-Bretanha. Churchill atacaria os navios de um alaido recente da Grã-Bretanha, navios e marinheiros que não tinham nenhuma propensão para se alinharem com a Alemanha.
[...]

Antes do primeiro esmaecer do sol na quente tarde mediterrânea, os britânicos abriram fogo. Durou nove minutos. O Dunkerque e outro velho navio de guerra francês encalharam na praia. Outro navio explodiu. O Strasbourg saiu do porto. Mil duzentos e cinquenta marinheiros franceses morreram. No mesmo dia, a marinha britânica usou a força para tomar alguns dos barcos franceses menores ainda em portos britânicos. Em Alexandria, no Egito, fez-se um acordo pelo qual os vasos de guerra franceses seriam imobilizados, em condições não muito diferentes das obtidas por Hitler para supervisionar e imobilizar os navios franceses nos portos europeus.

Oran não foi um completo êxito naval. O Strasbourg escapou; o Richelieu, atacado pelos britânicos alguns dias depois em Dakar, só sofreu danos parciais. Mas foi um sucesso político para Churchill em mais de uma maneira. Chegaremos a suas repercussões na Grã-Bretanha em breve. Mais importantes foram suas repercussões em todo o mundo. Era um símbolo da disposição dos britânicos para a luta, da resolução de Churchill de atacar e se defender em seu duelo com Hitler. [...]

Oran foi uma espécie de virada psicológica dos destinos. No entanto – isso tem de ser dito em seu favor -, Churchill não estava se vangloriando. “Nada é mais bem-sucedido do que o sucesso” - isso era típico da mente de Hitler, não da de Churchill. Naquela noite, ele disse a Colville que o ocorrido em Oran “para mim foi de cortar o coração”. Não foi uma reação pesarosa depois de um feito cruel. Cinco dias antes de Oran, Churchill dissera ao Gabinete de Guerra: temos de convencer o povo francês “de que estamos sendo cruéis para sermos bons”. [...]
(LUKACS, John. O Duelo Churchill X Hitler. Trad. Claudia Martinelli Gama. 2002)
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fontes interessantes: WW2 / 1940
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por Leonardo de Magalhaens
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