quarta-feira, 19 de maio de 2010

Avanço das tropas do III Reich






A política externa do III Reich

Uma das indecisões dos líderes nazistas era 'para onde as tropas deveriam avançar?'

Os prussianos queriam um avanço para o Leste, rumo ao Báltico e a Ucrânia. Este 'impulso para o Leste' (Drang nach Osten) era defendido pelo ideólogo Alfred Rosenberg, pois o povo alemão precisaria expandir-se, e assim garantir um 'espaço vital' (Lebensraum).

Já os bávaros e austríacos eram favoráveis a uma intervenção nos Balcãs, onde antes havia a influência do extinto Império Austro-Húngaro, ainda a despertar 'saudades' em muitos conservadores.

Outros eram mais moderados. Ribbentrop defendia a política de uma 'hegemonia europeia', mas sem chegar a uma guerra com os ingleses e os russos, e muito menos com os norte-americanos.

Outros viam a 'força militar' apenas como 'pressão' sobre as outras nações. Goebbels e Göring queriam a ameaça das armas para manter e expandir conquistas na política externa.

Assim, antes de qualquer coisa, o ditador A. Hitler precisaria tentar conciliar todas as orientações, para saber onde empregar as tropas germânicas. Assim fez usando diplomacia e ameaças para expandir as fronteiras alemãs na Europa Central (até setembro de 1939) e avançou para os Balcãs em 1940/41, até invadir as repúblicas bálticas, a Ucrânia e a Rússia, em junho de 1941.

Mas o Führer não queria atacar todos ao mesmo tempo. Queria um 'acordo' com a Grã-Bretanha, para então ter 'força total' contra a URSS. Não contava com atacar em todos os 'teatros de guerra' ao mesmo tempo!

Como seria possível um acordo entre nazistas e britânicos, se o primeiro-ministro era Churchill, tão anti-nazista quanto anticomunista? Historiadores dizem que Hitler queria explorar uma 'possível brecha' entre Churchill e o Ministério do Exterior, assim como Stálin explorava a oposição comunista alemã (em Moscou) contra os nazistas. Era uma político do tipo 'quinta-coluna'.

A ofensiva no Oeste seria também uma forma de pressionar (e neutralizar) os franceses e ingleses, no sentido de evitarem um 'golpe pelas costas' quando os exércitos alemães invedissem a vastidão das estepes ucranianas e russas. Não parece haver qualquer planejamento 'sério' para uma invasão concentrada das ilhas britânicas em 1940. Os ataques aéreos visavam mais 'quebrar a moral' do povo inglês – de modo a levá-lo a pressionar o governo Churchill para 'fazer a paz' – do que realmente ser a 'vanguarda' de uma invasão. Se realmente estava nos planos de Hitler uma invasão da Inglaterra, o melhor momento em junho e julho, não setembro e outubro de 1940.

Churchill fez pouco para encorajar a resistência alemã (os conservadores da nobreza e alguns militares, e uns poucos 'democratas'), contudo, fez tudo para que Hitler acreditasse que havia um 'Partido pela Paz', anti-Churchill na Grã-Bretanha.

Por Leonardo de Magalhaens
.
.
Fontes: LUKACS, John. O duelo: Churchil X Hitler. 1991
KILZER, Louis C. A Farsa de Churchill. 1994

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Churchill, o Primeiro-Ministro, assume a Guerra





Churchil – O Lorde da Guerra
Ronald Lewin
Biblioteca do Exército Editora / 1979.
trad. Cel. Álvaro Galvão
.

.
“Na véspera da sua nomeação [de Churchill] ocorreu um episódio que lançou dúvidas sobre a estabilidade e a justeza do seu julgamento: a campanha da Noruega. Chamberlain arcou com toda a culpa por este fracasso – e com razão; como Primeiro-Ministro, cabia-lhe manter um controle firme sobre todas as ações, mas, no caso da Noruega, não soube assumir o controle de uma operação combinada e, assim, conservar Churchill no seu devido lugar. Entretanto, como já era evidente naquela época, e ficou devidamente comprovado desde então, a maior parte dos grandes erros – erros na estratégia e na tática, erros de organização fáceis de evitar – ocorreram por culpa de Churchill. De cabeça quente, desnorteado e interferindo em tudo, o Primeiro Lorde do Almirantado parecia ter que embaralhar as coisas. No princípio, parece que houve grande dúvida tanto em Whitehall como em Westminster [expressão equivalente a 'no Governo e no Congresso', N. do T.] sobre a sua fidedignidade. Ismay, que logo iria se tornar seu adepto fiel, registrou na autobiografia que escreveu a sensação de desalento que se espalhou pelos estados-maiores das diversas forças armadas quando foi anunciada a nomeação de Churchill. Colville chega a ser rude a este respeito: “Em maio de 1940, a simples ideia de Churchill como Primeiro-Ministro provocava arrepios na espinha dos assessores em Downing Street 10. Os sentimentos ali existentes eram compartilhados pelos gabinetes dos ministros e pelos parlamentares.”


.
pp. 24/25

.

Churchill possuía diversas inaptidões para um Grande Comandante – inaptidões tanto intelectuais como temperamentais. Só parece justo admiti-las e relacioná-las depois de tentar uma avaliação do seu desempenho naquele papel, pois foi bem-sucedido apesar das inaptidões. Os defeitos do caráter de Hitler tiveram importância fundamental; os de Churchill, importância periférica. As imperfeições não atingiram o cerne do seu poder. E ele contava com qualidades notáveis. Ao assumir a função de Primeiro-Ministro, Churchill chegou a ela com as mãos limpas; mesmo aos olhos dos seus adversários, ele estava isento do pecado de apaziguamento. Além disto, em comparação com Roosevelt, ou com os ditadores, Churchill desfrutava de uma outra vantagem enorme. Seu campo de ação era o mundo. Dentro dele podia viajar livremente, locomover-se, como ele fazia magistralmente, toda vez que julgasse necessário.

Em virtude da sua posição especial, o Presidente dos Estados Unidos jamais conseguiu, como Churchill, pular pelos continentes em esforços improvisados para desatar os nós górdios. (Hitler, por sua vez, fechava-se em seu posto de comando, enquanto Stalin deixava-se enclausurado em Moscou.) E havia uma outra vantagem para Churchill, o Grande Comandante. Sua função constitucional não o impedia de visitar os locais de combate. (*) Sua presença constituiu uma inspiração para o combatente, pois ele esteve na sala de controle dos caças em 1940, no deserto egípcio, na parada triunfal em Trípoli, nas praias da Normandia, ao largo do litoral da França e na transposição do reno. Hitler dirigia a sua guerra pela mística, Stálin pelo terror e Churchill pela simpatia.
.
.
*Nota: “Com o correr do tempo, infelizmente Hitler visitava a frente cada vez com menos frequência; na última fase, não apareceu mais. Assim, perdeu o contato com a tropa e não mais conseguia compreender o que ela sentia e sofria.” (Guderian, em “Panzer Lider”)
.
pp. 34/35

.
Churchill – o Lorde da Guerra





LdeM

sábado, 8 de maio de 2010

Noruega - Duelo Churchill versus Hitler





John Lukacs (1924- )
O Duelo Churchill X Hitler (2002)
[The Duel: The Eighty-Day Struggle
Between Churchill & Hitler
, 1990)
trad. Claudia Martinelli Gama
.
(Operações militares na Escandinávia) p.28

Então surgiu um obstáculo [às negociações com a Grã-Bretanha] – mas um obstáculo que posteriormente aumentaria seu prestígio militar. Os britânicos e os franceses – logo veremos como e por que – estavam tentando abrir outra frente contra a Alemanha distante do oeste, no norte, provavelmente na Noruega. No outono anterior, após a Polônia, o Almirante Raeder começou a conversar com Hitler sobre a necessidade de ocupar a Noruega. Mas Hitler recusou. Só em março de 1940 se decidiu por um plano rápido e ousado, a fim de impossibilitar que os britânicos conseguissem uma pequena base na Noruega, para se antecipar a eles. Em 1 de abril, o almoço na Chancelaria, em Berlim, foi servido um pouco mais tarde do que de costume. Os generais reuniram-se em torno de Hitler. Suas palavras foram registradas no Diário de Guerra do Alto Comando do Exército. Elas nos revelam muito sobre a sua intenção e confiança na época. O Führer

descreve esta iniciativa [codinome “Weserübung”] não só como especialmente ousada, mas como uma das 'operações mais atrevidas' da história militar moderna. Exatamente por esse motivo [grifos meus] ele vê aí um dos fatores básicos do seu sucesso.

...Ele, o Führer, não é um homem que se esquive a decisões e lutas necessárias deixando-as para seus sucessores... Todas essas circunstâncias mostram que a situação da Alemanha é muito favorável, ela não poderia ser melhorada nos anos vindouros.

Ele próprio possui a coragem exigida para tal luta, ele também conhece pessoalmente quase todos os seus inimigos e os considera inexpressivos. Ele acha que sua personalidade é muito superior à deles.

Seu principal adversário na campanha norueguesa era Churchill. Ali, Hitler sem dúvida levou a melhor sobre ele. Assim, Hitler tinha razão para estar tão confiante em 10 de maio quanto estava em 1 de abril – se não ainda mais. Provavelmente, essa foi também a razão por que, naquele dia, ele parece ter prestado relativamente pouca atenção à notícia de que Churchill se tornara o primeiro-ministro britânico.



[Conflitos nas águas e terras nórdicas] p. 35 /36

Mas a guerra finlandesa ainda não terminara quando ocorreu um primeiro prelúdio do duelo, um incidente cujos encadeamentos iriam conduzir ao fatídico 10 de maio, quando principiou o duelo para valer entre Hitler e Churchill. Esse episódio envolveu não a Finlândia, mas a Noruega. Envolveu não carregamentos de minério de ferro, mas um choque de navios. O Altmark era um navio de abastecimento alemão, que transportava no porão marinheiros britânicos, prisioneiros, que haviam sido salvos e recolhidos pelo Graf Spee durante suas incursões iniciais no Atlântico Sul e, depois, transferidos para o Altmark. O Altmark avançava lentamente para o sul em águas territoriais norueguesas, dirigindo-se para um porto alemão. Churchill mandou um contratorpedeiro britânico segui-lo, atacá-lo, tomá-lo. Isso aconteceu em 16 de fevereiro, em Jössingford. (Depois disso, Vidkun Quisling e seus seguidores pró-alemães na Noruega chamariam os compatriotas pró-ingleses de “Jössingers”.) A abordagem foi rápida e bem-sucedida. Os prisioneiros britânicos no porão ouviram o brado dos seus libertadores: “A Marinha está aqui!” Esse pequeno drama reverteu em benefício de Churchill. Mas fez Hitler ficar alerta e alterar os planos. Ele estava então convencido de que Churchill queria apoderar-se da Noruega. Muito bem: se anteciparia a Churchill. Três dias após o episódio do Altmark, convocou o general Nikolaus von Falkenhorst. Em 1918, esse general havia comandado o desembarque de uma pequena força alemã na Finlândia. Hitler disse a Falkenhorst: “Sente-se e conte-me o que fez.” O general explicou. Em seguida, enquanto andava de um lado para o outro, Hitler apresentou a Falkenhorst uma lista muito impressionante de razões por que tinha de ser a Noruega. (A proteção das importações de minério de ferro era o item final e o menos importante em sua lista.) Em 1 de março – a guerra finlandesa ainda não havia terminado -, Hitler ordenou que a invasão da Dinamarca e da Noruega passasse a ter precedência sobre a campanha da Europa ocidental.

É importante reconhecer que Churchill fizera o primeiro rascunho (um curto memorando) acerca da colocação de minas nas águas costeiras da Noruega já em 27 de novembro de 1939 – ou seja, antes de irromper a guerra finlandesa. A Marinha real distribuiria minas nas águas norueguesas quer o governo norueguês as quisesse, quer não. Se os alemães se apresentassem para lutar (e Churchill esperava que assim fizessem), a marinha estaria lá em condições de derrotá-los, e então os britânicos se apossariam dos principais portos da Noruega. Assim, a Guerra Relutante [a Drôle de Guerre] evoluiria para algo importante e efetivo. O teatro da guerra se estenderia até a Noruega,onde a marinha deveria levar vantagem.

Foi só depois de complexas e cansativas negociações que, no início de abril, os gabinetes britânico e francês tomaram a decisão de acordo com a vontade de Churchill. Churchill estava então encarregado da questão norueguesa. Na realidade, estava mais envolvido no efetivo planejamento naval do que Hitler. Além disso – algo com frequência desconsiderado pelos historiadores e biógrafos -, o início de abril correspondia a uma fase em que a harmonia e a colaboração entre ele e Chamberlain haviam atingido o ponto máximo. Em 4 de abril, Downing Street anunciou que, dali em diante, o ministro da Marinha dirigia o Comitê de Coordenação Militar, que incluía os chefes do estado-maior. “Entre outros ministros militares, que também integravam o Ministério da Guerra, eu era o 'principal entre iguais'”, escreveu Churchill em suas memórias de guerra. Em seguida, esforçou-se para explicar que “eu não tinha, entretanto, poder para tomar ou fazer cumprir decisões”. O alto comitê era, afinal, ainda assim um comitê, um “grupo variável e amistoso, mas disperso”. Tudo isso era verdade, mas a responsabilidade pela campanha norueguesa ainda cabia a ele.

Em 5 de abril, Chamberlain falou na Câmara dos Comuns. Sobre Hitler, ele disse: “Uma coisa é certa: ele perdeu o trem.” Essa frase infeliz iria em breve atormentá-lo. (*) No final do dia 7, começou a colocação de minas britânicas ns águas norueguesas. Ao longo do dia 8, começaram a multiplicar-se as notícias sobre um movimento de uma frota alemã em direção ao norte. Em meio a uma borrasca, uma força maior e mais potente da marinha real se dirigiu para a Noruega. Alguns dos navios transportavam algumas unidades britânicas que desembarcariam na Noruega quando fosse necessário. Eles perderam o trem alemão – ou melhor, a frota alemã. Ao amanhecer do dia 9, as tropas alemãs invadiram a Dinamarca e desembarcaram em Copenhague, capturando a capital, o governo e o rei. Ao mesmo tempo – essa era a operação 'atrevida' -, desembarcaram em vários portos da Noruega, inclusive Narvik no extremo norte, onde ninguém, inclusive Churchill, esperara que chegassem.

(*)Não que Churchill não houvesse dito tolices. Na Câmara dos Comuns, em 11 de abril: “Na minha opinião, que é compartilhada pelos meus experientes conselheiros, Herr Hitler cometeu um sério erro estratégico... Quanto a mim, considero que a ação de Hitler ao invadir a Escandinávia é um erro estratégico e político tão grande quanto o que foi cometido por Napoleão em 1807, quando invadiu a Espanha.”
.
.
John Lukacs (1924- )
O Duelo Churchill X Hitler (2002)
[The Duel: The Eighty-Day Struggle
Between Churchill & Hitler
, 1990)
trad. Claudia Martinelli Gama
.
.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Retirada aliada na Escandinávia - 4 maio 1940

Diário de Berlim
William Shirer

trad. Alfredo C. Machado


1940

BERLIM, 4 de maio


Os ingleses acabam de efetuar uma retirada desordenada de Namsos, ao norte de Trondheim, completando assim o fracasso do auxílio aliado aos noruegueses, na parte central do país.

Onde estava a Home Fleet, que Churchill há quinze dias anunciou que varreria os alemães das águas norueguesas? Hoje assisti a um noticiário cinematográfico alemão. Mostrava as tropas nazistas efetuando o desembarque de tanques e artilharia pesada em Oslo. Com exceção do emprego de submarinos, aliás em pequeno número, parece que os Aliados não fizeram nenhum esforço realmente sério para impedir a chegada de suprimentos alemães à Noruega, via Oslo. Nem sequer chegaram a arriscar seus destroyers nas águas do Skagerrak e do Kattegat, para não falar nos cruzadores e couraçados.


Será que nesta curta campanha norueguesa o poder aéreo demonstrou a sua superioridade sobre o poder moral? Pelo menos nas batalhas desenroladas nas proximidades dos campos de pouso? Em 1914-1918, uma ofensiva alemã como a que acaba de acontecer estaria fora de cogitações. Mas, com a Luftwaffe controlando os campos de pouso da Dinamarca e da Noruega, a esquadra aliada não somente não se aventurou até as águas do Kattegat, a fim de sustar a remessa de tropas e suprimentos alemães para Oslo, como nem sequer tentou entrar em ação em Trondheim, Bergen ou Stavanger, com a única exceção do bombardeio do aéredromo deste último porto, que se prolongou por 80 minutos, logo no início da campanha. Os alemães agora já afirmam que a aviação demonstrou a sua superioridade sobre a marinha.

Façamos a resenha da situação: os aviões de Göring conseguiram realizar quatro façanhas de importância vital nessa campanha da Noruega:


(1)Mantiveram a rota marítima de Oslo, através das águas do Kattegat, completamente livre das unidades inglesas, permitindo que o grosso das tropas alemãs de terra fosse bem suprido de homens, artilharia e tanques.
(2)Impediram (ou conseguiram desencorajar) a Home Fleet de atacar os portos de Stavanger, Bergen e Trondheim, de importância vital para os nazistas.
(3)Com o bombardeio constante dos portos aliados de desembarque, tornaram quase impossível para os ingleses efetuar o desembarque de artilharia pesada e tanques, fato que, aliás, foi admitido pelo próprio Chamberlain.
(4)Com o bombardeio e o metralhamento das posições inimigas tornaram extremamente fácil às tropas alemãs o avanço através de um território cheio de dificuldades.
Noutras palavras, revolucionaram completamente a guerra, tanto no próprio Mar do Norte como nas suas vizinhanças.


(...)

W. Shirer


Comentário meu: Em outros trechos do Diário de Berlim, o jornalista norte-americano William Shirer demonstra o quanto a Aviação nazista – Luftwaffe – era eficiente em apoiar as forças terrestres do Exército alemão e ao mesmo tempo atacar as posições de resistência dos exércitos aliados (poloneses, ingleses, franceses, belgas, holandeses, principalmente). Durante a campanha na França, Shirer classifica de 'criminosa' a política dos Aliados de não investirem no desenvolvimento da aviação, “Que preço a Inglaterra e a França estão agora pagando pela criminosa negligência em que deixaram a sua aviação!” (AACHEN, 21 de maio [1940])

por Leonardo de Magalhaens
http://escritospoliticoslm.blogspot.com

quarta-feira, 28 de abril de 2010

abril 1940 - Invasão da Noruega







Diário de Berlim
William Shirer

trad. Alfredo C. Machado

1940
BERLIM, 11de abril

Londres anuncia que Bergen e Trondheim foram recapturadas pelos Aliados. O Alto Comando desmente categoricamente a informação. Como desmente também as notícias veiculadas de Londres sobre uma grande batalha naval no Skagerrak – teatro da batalha da Jutlândia, na Grande Guerra. As únicas perdas navais confessadas até o momento são a do cruzador Blücher, de 10.000 toneladas, ocorrida no fiorde de Oslo, e do cruzador ligeiro Karlsruhe, de 6.000 toneladas, ao largo de Kristiansand, ambos afundados pelas baterias norueguesas na manhã de 9 do corrente.

Soube que Hitler advertiu a Suécia das terríveis consequências que lhe traria uma atitude inamistosa, assumida nas atuais circunstâncias. Tanto quanto sei, os suecos estão extremamente amedrontados, nada farão para auxiliar os seus irmãos noruegueses e, mais tarde, receberão também a parte que lhes toca. É estranho como essas pequenas nações preferem ser tragadas pelo Führer, uma de cada vez.

Um porta-voz do Ministério do Exterior declarou-nos ainda hoje que o Presidente do Parlamento Norueguês, Hambro, nada mais era que “um sujeito sujo e judeu”. Agora, vê-se que o homem com quem os nazistas contavam na Noruega é um antigo Ministro da Guerra, de nome Vidkun Quisling, que, segundo parece, dispunha de uma forte e eficiente “quinta-coluna”. Um dos funcionários da Wilhelmstrasse revelou-me que Quisling seria o Primeiro-Ministro da Noruega. O Boersen Zeitung queixa-se da “incompreensível atitude do Rei Haakon... Pela sua atitude inflexível, o monarca mostrou estar muito mal aconselhado e não ser o verdadeiro defensor dos interesses de seu povo.”

Hoje à noite a BBC diz que Churchill declarou perante a Câmara dos Comuns que “Hitler cometeu um grande erro estratégico” e que a esquadra britânica vai agora tomar conta do litoral norueguês e afundar todos os navios que encontrar no Skagerrac (sic) e no Kattegat. Espero que esteja certo.

(nota minha:)
Skagerrak e Kattegat são os mares estreitos entre a península da Jutlândia (onde está a Dinamarca) e a Escandinávia (Noruega e Suécia), e fazem a conexão entre o Mar do Norte e o Mar Báltico (ou Ostsee, em alemão)

BERLIM, 14 de abril

Até que enfim descobri como os alemães, sem possuírem uma esquadra adequada, ocupraram os principis portos noruegueses, situados ao longo de um litoral de mais de mil e seiscentos quilômetros de extensão, mesmo às barbas da Home Fleet. As tropas alemãs, juntamente com seus canhões e respectiva munição, foram transportadas a seu destino em cargueiros que ostensivamente se achavam a caminho de Narvik a fim de transportar o minério de ferro sueco.
Esses cargueiros, como aliás vinham fazendo desde o início da guerra, navegavam dentro dos limites dos cinco quilômetros das águas territoriais norueguesas, escapando assim de serem descobertos pelas belonaves inglesas! E quanta ironia! - foram mesmo escoltados até os objetivos visados pelos próprios navios de guerra noruegueses, que tinham instruções de protegê-los contra os ingleses!

Isso, entretanto, não explica por que motivo os ingleses deixaram uma grande parte da esquadra alemã – 7 destroyers, 1 cruzador pesado e 1 couraçado – subir toda a costa norueguesa sem ser pressentida.

Os círculos navais alemães admitem que os seus 7 destroyers foram destruídos por uma força naval britânica numericamente superior durante o combate travado ontem em águas de Narvik, afirmando que, entretanto, continuam de posse da cidade. Todavia, os jornais de amanhã dirão: REPELIDO ATQUE INGLÊS CONTRA NARVIK. Quando mostrei, hoje à noite, uma das edições dos matutinos que vão aparecer amanhã a um capitão da Marinha, ele não pôde deixar de sentir-se envergonhado, praguejando contra Goebbels.

Soube que o General von Falkenhorst fez publicar a seguinte proclamação em Oslo: “O governo norueguês rejeitou várias propostas de cooperação. Assim, é o povo norueguês que deve decidir agora sobre o destino de sua pátria. Se esta proclamação for obedecida, tal comoa conteceu na Dinamarca, a Noruega será poupada aos (sic) [dos] horrores da guerra. Entretanto, desde que seja oferecida qualquer nova resistência e rejeitada a mão estendida com inteções tão amistosas, então o Alto Comando Alemão ver-se-á obrigado a agir com meios mais violentos para quebrar inteiramente essa resistência.”

Hitler está plantando na Europa uma semente que, um dia, destruirá não apenas ele próprio como também a sua nação.

(nota minha:)
General von Falkenhorst foi o Comandante alemão responsável pela Operation Weser-Exercise, ou Unternehmen Weserübung [Exercício Weser], o codinome da Invasão da Dinamarca e da Noruega em abril de 1940. Segundo consta, o General não planejou a Invasão através de mapas militares, mas usando um guia de turismo Baedeker. O que mostra uma grande dose – para dizer o mínimo – de improvisação e imaginação. A aventura nazista ainda levaria à improvisações mais desastrosas.

Leonardo de Magalhaens


....

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Hitler queria a Guerra - mas os Generais alemães não?




Hitler queria a Guerra - mas os Generais alemães não?



fonte: FEST, J. “Hitler” (1973; BRA, 1976)
(trad. Francisco Manuel da Rocha Filho;
Ana Lúcia Teixeira Ribeiro; António Nogueira Machado)
Livro VII(Vencedor e Vencido)
Capí­tulo 1 (O Estrategista)
(p.744)
"A 'crise dos oficiais' do outono de 1939 teve implicações que se
estenderam no tempo. De acordo com sua natureza, que não
admitia senão sentimentos inteiriços, totais, Hitler, daí­ em diante,
nunca teve muita confiança na lealdade de seus generais, nem
na validade de seus conselhos técnicos; e a impaciência com
que se pôs imediatamente à frente de suas tropas, assumindo
pessoalmente o papel de general-chefe, tinha origem nesses
acontecimentos. Por outro lado, a fraqueza e subserviência
de espí­rito demonstradas novamente pelos oficiais generais,
muito particularmente no que respeitava ao
Alto Comando do Exército (OKH), vieram ao encontro de sua
intenção de suplantar seus generais, reduzindo o funcionamento
do comando militar a funções puramente mecânicas. Desde os
preparativos da campanha-relâmpago contra a Dinamarca e
a Noruega,com a qual contava garantir o controle do minério
sueco, bem como instalar uma base de operações para sua
luta contra a Inglaterra, Hitler eliminou totalmente o OKH.
Depois disso, adiou a execução do projeto a um Estado-Maior
‘particular’ do Alto Comando da Wehrmacht (OKW), realizando,
assim, no domínio da hierarquia militar, o sistema de instâncias
rivais entre si, um dos postulados do exercí­cio de sua autoridade.
Suas hipóteses se concretizaram brilhantemente quando o
empreendimento altamente perigoso do iní­cio de abril de 1940
‘operação que contrariavatodos os princí­pios fundamentais da
orientação de uma guerra marí­tima tradicional e que os
Estados-Maiores aliados tinham considerado impraticável’
terminou com uma vitória total. Desde então, nunca mais
encontrou oposição aberta por parte de seus oficiais generais;
para se ter uma ideia do grau de apatia deles, basta lembrar que,
depois da crise do outono, Halder tinha-se dirigido ao Secretário
de Estado von Weizsäcker, perguntando- lhe se não seria possí­vel
fazer pressão sobre Hitler arranjando 'uma profetisa (pitonisa);
se comprometia a arranjar um milhão de marcos para isso';
por outro lado, Brauchitsch tinha dado a um dos seus visitantes
a impressão de que estava 'completamente liquidado, esgotado’” (7)
[fonte de J. Fest:]
(7)H Groscurth, “Tagebücher eines Abwehroffiziers 1938-1940” , p. 233.

sábado, 10 de abril de 2010

Shirer's Diário de Berlim - 8 e 9 abril 1940



William Shirer
Diário de Berlim
Volume 2 (1940-1941)
trad. Alfredo C Machado

BERLIM, 8 de abril

Os ingleses anunciam que minaram as águas territoriais norueguesas a fim de impedir a passagem dos cargueiros alemães que descem de Narvik carregados de minério de ferro. A Wilhelmstrasse afirma que “A Alemanha saberá reagir”. Mas, como? Esta noite a cidade foi tomada por dois boatos que entretanto não podemos confirmar. Um deles diz que a esquadra alemã saiu para o Kattegat, ao norte da Dinamarca, a oeste da Suécia e sul da Noruega, rumando para o Skagerrak. O outro adianta que se está formando uma força expedicionária alemã em vários portos bálticos e que dezenas de navios de passageiros têm sido reunidos apressadamente a fim de transportá-la para a Escandinávia.

BERLIM , 9 de abril

Neste dia de primavera, Hitler ocupou mais dois países. Pela madrugada, as tropas nazistas invadiram os dois Estados neutros da Dinamarca e da Noruega, a fim de, conforme informa ingenuamente um comunicado oficial, “proteger a liberdade e a independência desses dois países.” Depois de doze curtas horas, parece que tudo está acabado. A Dinamarca, com a qual Hitler assinara um pacto de não-agressão válido por dez anos, apenas há doze meses, foi inteiramente subjugada, e todos os portos importantes da Noruega, inclusive a capital, já estão em poder das tropas alemãs. A notícia é de causar estupefação. Copenhague foi ocupada pela manhã, Oslo à tarde, Kristiansand à noite. Todos os grandes portos noruegueses, Narvik, Trondheim, Bergen, Stavanger, foram capturados. A forma como os nazistas conseguiram chegar lá – sob as barbas da Home Fleet – constitui impenetrável mistério. É verdade que a operação foi planejada e preparada há muito tempo e, com toda certeza, posta em execução antes que a esquadra inglesa tivesse minado as águas territoriais norueguesas, há dois dias. Isso porque para alcançar Narvik, partindo de qualquer das bases alemãs, seriam precisos pelo menos três dias.
...

William Shirer
Diário de Berlim
Volume 2 (1940-1941)
trad. Alfredo C Machado

Nota:
Home Fleet: é a frota da Royal Navy – Marinha Real britância - que protege as águas territoriais do Reino Unido. Durante a Segunda Guerra Mundial, os comandantes foram (fonte: Wikipedia)

Sir Charles Forbes (1939–1940),
Sir John Tovey (1940–42),
Sir Bruce Fraser (1942–44)
Acting Admiral Sir Henry Moore (14.06.1944 - 24.11.1945)
Adm. Sir Edward Neville Syfret, RN (24.11.1945 - 07.01.1948)

Mais em

domingo, 4 de abril de 2010

Shirer - Diário de Berlim - março/abril 1940

do Diário de Berlim
do jornalista William Shirer (USA)

trad. Alfredo C. Machado



1940


BERLIM, 28 de março

A Alemanha não pode prosseguir na guerra, a menos que continue a receber os seus fornecimentos de minério de ferro da suécia, cuja maior parte é embarcada no porto norueguês de Narvik, em cargueiros alemães, que burlam o bloqueio descendo a costa norueguesa sempre dentro do limite das águas territoriais, onde se encontram a salvo dos ataques ds belonaves inglesas. Muitos de nós temos procurado descobrir por que motivo Churchill nunca tomou uma medida contra isso. agora parece que o Primeiro Lorde do Almirantado fez alguma coisa nesse sentido, uma vez que a Wilhelmstrasse diz que passará a observá-lo. para os alemães, trata-se de um assunto de vida ou morte. X garante-me que, se os destroyers britânicos invadirem as águas territoriais norueguesas, a Alemanha agirá imediatamente. a forma pela qual pensa agir é que não está bem esclarecida. a esquadra alemã não é uma adversária capaz de enfrentar a Home Fleet [frota britânica].

(...)


BERLIM, 2 de abril

Em minha irradiação desta noite disse o seguinte: "A Alemanha está agora à espera do que os Aliados pretendem fzer para sustar os carregamentos de minérios da Suécia, que, descendo pelo litoral norueguês, vão ter aos portos do Reich. Nesta capital já se aceita como ponto pacífico que os ingleses invadirão as águas territoriais escandinavas a fim de acabar com esse tráfego. Da mesma forma que também se aceita como conclusão lógica que a Alemanha reagirá... A Alemanha importa anulmente nada menos que dez milhões de toneldas de minério de ferro sueco. E não pode concordar, sem luta, com a suspensão desses fornecimentos."
Mas, como? S, um de meus amigos, murmura qualquer coisa sobre as tropas nazistas que estão sendo concentradas nos portos bálticos. Mas que pode fazer a Alemanha contra a esquadra inglesa?


William Shirer



Meu comentário:

O caso é que os nazistas já estavam fazendo algo. Imprevisíveis e imorais como eles eram. Enquanto Churchill planejava espalhar minas nas costas da Noruega, os nazistas já transportavam seus soldados ocultos em navios mercantes. Veremos como esta estratégia de 'guerrilha' surpreendeu os Aliados. Os nazistas realmente faziam uma guerra sem nenhuma honra. Se é que 'honra' significa algo para os fascistas.

(LdeM)

terça-feira, 23 de março de 2010

final da DRÔLE DE GUERRE (Sartre)



Drôle de Guerre
Diário de Uma Guerra Estranha

Jean-Paul Sartre
trad. Aulyde Soares Rodrigues (1983)
[1940]
Quarta-feira, 13 de março
...

19h45m. Recebi pelo telégrafo a notícia da capitulação da Finlândia.Impressão dolorosa.
.

Quinta-feira, 14 de março

A indignação povocada na imprensa francesa pela “covardia” sueca é exatamente a mesma provocada por nossa atitude, há três anos, para com a Espanha.

....

Excelente observação em L'OEuvre:

“Entre os maus slogans que nasceram na guerra, um dos mais exasperantes é a famosa fórmula: 'O tempo trabalha para nós'
“Dizem isso com uma expressão finória ou idiota, piscando um olho. Por pouco não acrescentam: 'O tempo trabalha, deixem que ele trabalhe, não vamos incomodá-lo!'
“Como não percebem que esse é o melhor meio de provocar a indolência, a falta de imaginação e a falta de iniciativa?
“Será que o tempo trabalha para nós quando a Suécia e a Noruega passam do campo das democracias para o campo de Hitler?
“Será que o tempo trabalha para nós quando o heróico povo da Finlândia tem de submeter-se ao diktat russo-alemão?”
E esta observação de Déat: “O níquel e o ferro são adquiridos agora da Alemanha, os países escandinavos tornam-se clientes de Stalin e sobretudo de Hitler. Amanhã, sem dúvida os fiordes abrigarão os submarinos alemães, esperando que as bases aéreas sejam instaladas nessas terras domésticas.... Acabamos de perder os países escandinavos. Se insistirmos, vamos perder também os Balcãs. De duas uma: ou manobramos pelos flancos, em estilo militar, pois o golpe de frente, no centro, foi sensatamente excluído. E então utilizamos os flancos enquanto ainda há tempo. Ou então admitimos que não existem mais flancos e que toda a operação está interditada. Nesse caso é outra guerra que faremos. Não menos difícil, não menos perigosa, não menos total. Mas ela exige outra diplomacia, outra organização econômica, outra moral, outra propaganda, outros métodos de governo.”

Chaumeix (Paris-Soir): “Para a Inglaterra e para a França é uma derrota inconstestável.”(1)
Nossa primeira derrota. É recebida aqui com uma certa indiferença. Dizem: “Agora a guerra vai durar dez anos.”
....

Nota (LdeM)

(1)o jornalista André Chaumeix, que escrevia para o Paris-Soir e tinha textos publicados na Revue des deux mondes , sempre alertava as autoridades francesas para o perigo do Hitlerismo, advindo do militarismo germânico. Chaumeix não acreditava na 'política do Apaziguamento' tão proclamada pelo Primeiro-Ministro Britânico Chamberlain. Não devia se negociar com o diatador alemão, em nenhuma hipótese.

Na verdade, a Segunda Guerra Mundial estava apenas a começar e durou seis anos. Longos e sangrentos, da Europa ao Pacífico, dos desertos ao norte da África às selvas úmidas da Indochina. E Sartre foi vítima desta Guerra, sofreu na pele a crueldade dos campos de concentração nazistas.

Leonardo de Magalhaens

domingo, 14 de março de 2010

13 março 1940 (Diário de Berlim - W. Shirer)



Diário de Berlim (1934-1941)
Berlin Diary (trecho)
volume 2
trad. Alfredo C Machado

(Fim da Guerra de Inverno)

BERLIM, 13 de março

Ontem à noite, em Moscou, foi assinada a paz entre a Rússia e a Finlândia. Trata-se de uma paz muito onerosa para a Finlândia, e hoje em Helsinki, segundo anuncia a BBC, o pavilhão nacional foi hasteado a meio mastro. Entretanto, Berlim está exultante. Por dois motivos: primeiro, a paz veio livrar a Rússia dos sacrifícios da guerra, de forma que, agora, pode fornecer algumas ds matérias-primas de que o Reich tanto necessita; e segundo, remove o perigo de a Alemanha vir a ter que sustentar uma luta numa frente situada no extremo norte, que seria forçada a alimentar por via marítima e que poderia levá-la a uma dispersão de suas forças militares, atualmente concentradas no Ocidente, prontas para o golpe decisivo, a ser desfechado a qualquer momento.
Acredito que, no fim de tudo, a Noruega e a Suécia pagarão pela recusa em permitir a passagem das tropas aliadas pelos respectivos territórios, para irem em auxílio da Finlândia. Aliás, para falar a verdade, nenhum desses dois países está colocado numa posição muito agradável. Ainda hoje, Braun von Stumm, do Ministério do Exterior, confirmou-me que Hitler informa tanto a Oslo como a Estocolmo que, se as tropas aliadas pusessem pé em território da Escandinávia, a Alemanha invdiria imediatamente a área do norte, a fim de rechaçá-las. O problema dos escandinavos reside no fato de que cem anos de paz acabaram por transformá-los em criaturas brandas, amantes da paz a qualquer preço. Assim, não tiveram coragem para encarar o futuro. E, quando chegar o momento de escolher o partido a tomar, então será demasiadamente tarde para isso, como sucedeu à Polônia. O Ministro do Exterior da Suécia, Sandler, é o único que parece enxergar a situação com toda clareza, mas, por isso mesmo, foi obrigado a demitir-se.

Agora, a Finlândia está à mercê da Rússia. Daqui por diante, sob o pretexto mais fútil, os soviéticos poderão invadir o país, uma vez que os finlandeses terão que lhes entregar todas as suas fortificações, da mesma forma como os tchecos foram obrigados a fazer, após o pacto de Munich. (Depois disso, a Tcheco-Eslováquia só durou cinco meses e meio.) Não chegamos a uma fase histórica em que as pequenas nações não mais se encontram em segurança e em que todas elas têm que viver sofrendo as imposições dos ditadores? Há muito que já se foram aqueles felizes dias do século XIX, quando qualquer país podia permanecer neutro e em paz, desde que assim o quisesse.

Com a paz na Finlândia, o assunto do dia em Berlim volta a ser a ofensiva alemã. X, que é alemã, vive a dizer-me que essa ofensiva será horrorosa: gases venenosos, micróbios, etc. Da mesma forma que todos os alemães, embora ela deva saber melhor, X acredita que a ofensiva será tão terrível que trará uma vitória extremamente rápida para a Alemanha. Nunca lhe passou pela cabeça que o inimigo também dispõe de gases venenosos e micróbios.

......

William Shirer
Diário de Berlim
Volume 2 (1940-1941)
trad. Alfredo C Machado

domingo, 7 de março de 2010

Guerra Falsa & Campanhas nórdicas

Trecho de
A ALEMANHA DE HITLER
autor: Roderick Stackelberg
trad. A B Pinheiro de Lemos

sobre a “guerra falsa”e as “campanhas nórdicas"


A ”Guerra Falsa”


Na frente de oeste, por outro lado, a guerra assumiu a forma do que os alemães chamaram de Sitzkrieg (guerra sentada), enquanto no Ocidente era conhecida como ”Guerra Falsa”. Os franceses não se arriscaram a sair de suas posições defensivas na Linha Maginot, apesar da considerável superioridade - embora temporária - em número e material. A experiência da Primeira Guerra Mundial convencera os líderes militares franceses de que a defesa era mais importante que a ofensiva. A relutância em lançar um ataque foi também uma decorrência da persistente ilusão de que os combates ainda poderiam ser evitados, se os alemães não fossem provocados. O medo da retaliação aérea contra alvos civis foi outro elemento dissuasivo, assim como a bem fortificada Muralha do Oeste (também chamada de Linha Siegfried), corn 650 quilômetros, construída pelos alemães antes do início da guerra, da fronteira suíça até o norte da cidade de Aachen. Os Aliados achavam que o tempo estava do seu lado, que um bloqueio bastaria para acarretar o colapso alemão.


Depois da conclusão vitoriosa da campanha polonesa, Hitler propôs a paz, em troca da aquiescência Aliada para a ocupação alemã da Polônia. Ao oferecer ao mesmo tempo sua garantia de manutenção do Império Britânico, Hitler esperava fincar uma cunha entre a Inglaterra e a França. Quando sua oferta foi rejeitada, Hitler optou por desfechar uma ofensiva imediata na frente ocidental. Várias considerações persuadiram-no da necessidade de procurar uma solução rápida da guerra no Ocidente. A neutralidade soviética e americana talvez não durasse, a Itália podia vacilar em sua lealdade, e os países ocidentais provavelmente adquiririam mais poderio militar. As condições do tempo, no entanto, assim como a perda acidental dos planos de batalha alemães na Bélgica, em janeiro, forçaram um adiamento do ataque até a primavera seguinte.

A campanha escandinava


A Guerra do Inverno transferiu o foco dos planejadores militares para a Escandinávia. A Noruega serviu como o canal para a ajuda francesa e britânica aos finlandeses na Guerra do Inverno. E verdade, diga-se de passagem, que bem pouca ajuda de fato alcançou os finlandeses. Os alemães temiam, não sem razão, que os Aliados planejassem abrir uma segunda frente contra a Alemanha na Escandinávia. A 9 de abril de 1940, tropas alemãs invadiram a Dinamarca e a Noruega, a fim de impedir que os britânicos ocupassem esses países e interrompessem o fluxo de minério de ferro da neutra Suécia, que era vital para a economia de guerra da Alemanha. A Dinamarca caiu em doze horas, mas o exército norueguês lutou corn a maior tenacidade, corn o apoio dos Aliados, por várias semanas. A resistência final só terminou a 10 de junho, quando a campanha alemã contra a França já fora desfechada. Na Noruega, os alemães instalaram um regime subordinado, tendo no comando um ex-ministro da Defesa norueguês, Vidkun Quisling (1887-1945), cujo nome se tornaria um símbolo de abjeta colaboração.
Roderick Stackelberg

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Guerras Civis - embates de Ideologias


Guerras Civis

(aspectos ideológicos)

Guerra civil foi especialmente radical em países onde a Esquerda (ou melhor: os favoráveis a Democracia Social), era mais forte, com seus movimentos sociais, sejam com esforços de socialistas, comunistas, anarquistas, social-democratas, etc.

Encontramos o exemplo da Alemanha logo após a Primeira Grande Guerra (1914-1918) com a criação de conselhos de soldados e operários, nos moldes dos Soviets russos, que organizaram o 'caos' durante a queda da Monarquia germânica, enquanto parte do Exército apoiava os Guardas Brancos na Finlândia (1918) contra a Guarda Vermelha (apoiada pelo Exército Vermelho russo). Assim, a Guerra Civil finlandesa mostrou-se uma cisão entre russófilos e germanófilos, além de revolucionários e reacionários. Foi um conflito mais brutal na região sul e sudeste da Finlândia – região de forte industrialização e grande população – com destaque para a Batalha de Tampere (1918)

A mesma polarização – revolucionários e reacionários – mas então comunidtas X fascistas – ocorreu na Guerra Civil espanhola (1936-1939) com os reacionários, monarquistas, falangistas recebendo o apoio de infantaria italiana e aviação alemã (ambos de governos fascistas-centralistas-imperialistas) , enquanto os legalistas, os republicanos, os liberais, os socialistas, os anarquistas combatiam com as próprias forças, e os comunistas recebiam apoio soviético (nem vamos comentar as políticas bizonhas de Stálin), e as potências ocidentais ditas liberais e democráticas nada fizeram para interferir – exceto que muitos cidadãos volutnariamente se inscreveram nas Brigadas Internacionais e foram combater em prol da Democracia liberal (ou da Democracia Social) na Espanha.

Também a Itália quase sofreu uma 'guerra civil' na década de 20, com os embates entre socialistas, comunistas (estalinistas e trotskistas), anarquistas contra os fascistas – muitos saídos das fileiras do sindicalismo e do socialismo (como é caso do próprio Mussolini). Traidores dos movimentos proletários não faltaram nesse triste década de 20 – na Europa – que foi encerrada ainda mais tragicamente com a Quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.

Depois da Primeira Grande Guerra – que colocou proletários contra proletários – os movimentos sociais perceberam que não poderiam competir com os sistemas de produção capitalista. Perceberam que expansão e internacionalismo da luta anti-capitalista era essencial para o fortalecimento do socialismo, que não poderia ser um 'sistema' de competição com o capitalismo, mas precisaria substituir a 'competição' pela ' cooperação' – daí a proliferação de cooperativas, empresas com auto-gestão dos próprios operários, sistemas de apoio mútuo, uma previdência não estatal, mas descentralização entre os grupos de proletários, etc.

Contudo, com as expansão dos movimentos sociais, os burgueses e monarquistas reacionários logo reagiram, também 'polarizaram', e o foi o que bastou para AMBOS OS LADOS radicalizarem. Tanto direita quanto esquerda realizaram barbaridades vergonhosas. Mas os mais 'brutais' – os reacionários – venceram.

Os socialistas (termo amplo que pode incluir tanto anarquistas quanto comunistas)(*) não venceram porque não foram tão brutais quanto os reacionários – sejam monarquistas, burgueses, fascistas, etc – sendo estes centralziados e hierarquizados, enquanto aqueles, os socialistas, eram descentralizados e sem liderança. (Aliás, falar em 'líder' anarquista, p.ex., não faz sentido...)

Os monarquistas finlandeses - Guardas Brancos - receberam apoio dos monarquistas alemães, enquanto os falangistas espanhóis receberam apoio dos fascistas italianos e alemães – que haviam sufocado as revoluções em seus próprios países (Mussolini marchou para Roma em 1922, e a revolução alemã foi sufocada em 1923 ).

A Alemanha não tivera 'revolução burguesa' (não ao estilo da francesa, de 1789 a 1799), mas uma 'unificação' (1870/71) por vias militares, sob hegemonia prussiana, numa união de nobres e burgueses contra proletários, em processo arquitetado de 'cima-para-baixo' (bem ao estilo antiparlamentarista de Bismarck), e a mesma Alemanha sufocou a possível 'revolução proletária' – na forma de vários comitês de operários, como é o exemplo da República Soviética da Bavária - que poderia internacionalizar o socialismo e evitar o nacionalismo russo na forma de “estalinismo” (nada mais que 'golpe napoleônico' dentro do próprio Bolchevismo, com a revolução 'devorando seus filhos', e dando lugar para os burocratas partidários da Nomenklatura...)

Assim, a vitória da República de Weimar – com discurso social-democrata, mas favorável aos monarquistas – sobre os movimentos socialistas e comunistas nada mais nada menos que 'pavimentou' o caminho para o Nazismo (dito: Nacional-Socialismo, onde a incoerência começa no nome), quando a Direita – após mastigar a Esquerda - engoliu o Centro.

Na Itália, o ex-socialista Benito Mussolini marchou sobre Roma com um conjunto de militares, populistas, corporativistas, ex-sindicalistas, etc, e obigou a Monarquia a aceitar uma diarquia (poder duplo) Rei – Duce. Governo que se radicalizou eliminando a oposição de Esquerda e de Centro, e colocou os italianos numa guerra total contra os franceses, os anglo-americanos e os russos.

Então por que os russos vermelhos venceram na Rússia? Primeiro, a Primeira Grande Guerra desestabilizou o Tzarismo (Czarismo). Segundo, a experiência dos Sovietes era mais consolidada, a ponto de ser um poder paralelo ao Governo Provisório de Kerenski, claramente burguês e liberal. Terceiro, quando Lênin resolveu levar a revolução adiante – radicalizando em outubro de 1917 – ele foi obrigado a estabilizar o governo novo (do Partido Comunista) como um 'centralismo' – um eufemismo para Ditadura – e decretar de 'cima-para-baixo' – Lênin incorporou uma prática de Bismarck – e apenas afastou os social-democratas, os socialistas-revolucionários e os anarquistas – criando uma 'ditadura do Partido', a vanguarda, que dizia implantar uma 'ditadura do proletariado' (segundo os conceitos de Marx)

E os Bolcheviques venceram os Guardas Brancos porque foram mais 'centralistas' – e por que não dizer tudo? - mais 'brutais' que os 'Brancos'. Olho por olho, dente por dente. Obviamente, disso não poderia sair um Socialismo.

Na Rússia criou uma ditadura unipartidária, centralista e estatista, que mais prejudicou o movimento operário (e os movimentos sociais em geral) do que realmente ajudou. A prepotência de Lênin criou uma divisão entre leninistas e outros socialistas (p.ex. os que seguiam Rosa de Luxemburgo), e a ascensão de Stálin – contra os demais figurões do Partido – criou uma cisão “Estalinistas” versus “Trotskistas”. Nessa divisão, os 'comunistas' se prejudicaram, como é visivel o exemplo trágico da Guerra Civil espanhola.

jan/fev/10

Leonardo de Magalhaens

nota:

(*)o termo 'socialista' é visivelmente ideológico, refere-se aos apoiadores da Democracia Social de forma ampla. Pois encontramos comunistas que se dizem 'socialistas', mas nem todo socialista é comunista; assim como existem os anarquistas que se dizem 'socialistas', mas nem todo socialista é anarquista. E socialista não significa exatamente 'anti-capitalista' (outro termo amplo e genérico) pois um fundamentalista islâmico pode ser 'anti-capitalista' e ser nada 'socialista'. Nem significa que o 'socialismo' seja 'ateísmo', pois muitos se dizem 'socialitas cristãos', ao proclarem Cristo como um libertário, combatendo pelo social, em contraponto a imagem hierárquica dos líderes religiosos (principalemente, o catolicismo com o centralismo da Santa Sé/Vaticano)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Drôle de Guerre - 'os homens não merecem a paz'






dezembro/ 1939



segunda-feira, 18



"Os homens, dizemos – afirmava Maheu em sua última carta -, não merecem a paz. É verdade. Verdade no sentido simples de que eles fazem a guerra. Nenhum dos homens atualmente mobilizados (sem exceção de mim, naturalmente) merece a paz, porque se a merecesse realmente não estaria aqui. - Mas pode ter sido obrigado, forçado... Tá tá tá: ele era livre. Compreendo que ele partiu acreditando que não tinha outro remédio. Mas essa crença era decisória. E por que ele decidiu assim? Aí reencontramos os móveis e a cumplicidade. Por inércia, fraqueza, respeito pelo poder, medo de uma condenação – porque calculou as possibilidades e concluiu que arriscava menos obedecendo do que resistindo – por gosto pela catástrofe – porque sua vida não o prendia bastante (nesse sentido, melhorar sua vida, tanto quanto o permite a natureza do objeto, significa trabalhar pela paz. Conheci alguns que, por terem tido insucesso no casamento, declaravam, em outubro de 1938, que encaravam a guerra com indiferença, sem parecer compreender que sua situação de homens históricos dava peso e consequência a essa indiferença e que ela facilitava o início da guerra – não por fazê-la eclodir, mas por serem cúmplices ) - porque precisava de um grande cataclismo para cumprir sua profissão de homem – por importância, idiotice, ingenuidade, conformismo – por pavor de pensar livremente – porque era um galo de briga. Por isso, na guerra não há vítimas inocentes. Se as houvesse, aliás, elas recomeçariam a guerra por sua própria conta usando mil modos para se tornarem cúmplices no detalhe da sua vida militar. De modo que o mito da redenção adquire aqui toda a sua força moral: a natureza da historicidade é tal, que só cessamos de ser cúmplices tornando-se mártires. Só não merecem a guerra os homens que aceitam o martírio pela paz. Só eles são inocentes, pois a força de sua recusa é bastante grande para suportarem o infortúnio e a morte. Assim, é verdade que, aceitando as consequências da sua recusa, eles sofrem inocentes pelos outros. Não existe, pois, outro modo de assumir nossa historicidade senão tornando-se mártires e redentores. (...)"


Jean-Paul Sartre




trad. Aulyde Soares Rodrigues / 1983

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Drôle de Guerre - a paz-guerra






Drôle de Guerra

trechos do Diário de Jean-Paul Sartre

trad. Aulyde Soares Rodrigues / 1983


terça-feira, 5 dezembro /1939

“... eu anoto as passagens principais de um artigo
de X. publicado na Revue des Deux Mondes de
15 de agosto de 1939: “A Paz-Guerra”.

... “O conceito clássico da guerra conduz, portanto, a
uma forma de conflito que não corresponde às
possibilidades e às necessidades da Europa, atualmente.
A Europa, na verdade, não se refez ainda dos inconvenientes
de todo tipo provocados pela Grande Guerra. Precisa de
paz para se refazer e reorganizar sua economia em
função dos meios modernos de produção... Por outro lado,
a opinião pública, na maior parte das nações europeias,
recusa-se instintivamente a aceitar a ideia da guerra...
Essa convicção é um fato capital peculiar da nossa época.”

...

“Assim, essa repugnância pela guerra total, por uma
transformação surpreendente, autoriza o emprego da
violência que ultrapassa nitidamente as regras da tradição
diplomática... Já não é a paz e ainda não é a guerra que
conhecíamos, mas um estado intermediário que chamaremos
de paz-guerra.

“A paz-guerra repousa na ideia de aproveitar o temor da
guerra-catástrofe para exercer pressões mais enérgicas
do que antigamente, evitando criar uma tensão suficiente
para levar o inimigo à guerra total.

“O primeiro elemento de toda combinação consistirá,
portanto, em avaliar o ponto crítico além do qual o
adversário preferirá a guerra total à capitulação.

“Procedimento característico: guerra política, isto é,
intervenção na política interna do país adversário. Atacam-se
assim diretamente os centros nervosos dos quais depende
a capitulação. (Ludendorff, guerra total: a coesão anímica
da nação é fator essencial da vitória.)” (...)

...

Lendo agora o diário de Sartre, é possível perceber o quanto
o artigo citado está correto.

Pois os Nazistas adotaram justamente estas diretrizes de
'ataque interno' com as 'quintas colunas' alojadas dentro
dos Estados-Nações que eram alvo de ações militares.
Vide o traidor Vidkun Quisling na Noruega, vide a ação
dos franceses reacionários, fascistas, que pregavam o fim da
democracia, ou então os grupos de fascistas de Oswald Mosley
na Grã-Bretanha, que eram favoráveis às negociações com o
Führer Hitler e o temível III Reich.



Leonardo de Magalhaens

http://leonardomagalhaens.zip.net/


Vídeos

domingo, 24 de janeiro de 2010

Prévias da WW2 - A Guerra Civil Espanhola






Guerra Civil Espanhola (julho 1936 – abril 1939)

Se o General Franco e os militares rebeldes esperavam
derrubar a República com um 'golpe de Estado' estavam
eles um tanto enganados: os espanhóis democratas
resistiram ao avanço fascista, contando com forças de
esquerdas (nem todas democratas, como os comunistas
e anarquistas), o que gerou um conflito de vastas
proporções, sendo lento e sangrento. E exigiu apoio de
estrangeiros: voluntários das Brigadas Internacionais,
forças alemãs, italianas e soviéticas.

Cerca de um milhão de espanhóis – além de voluntários,
de ambos os lados, vindos de outras nações – perderam
a vida nas batalhas e nos massacres de civis. Uma luta
ideológica feroz e sem quartel – contando com o apoio da
infantaria italiana e da aviação alemã (no lado reacionário)
e com a artilharia e forças blindadas soviéticas (no lado
comunista)

Houve radicalismo de ambos os lados – e poucos democratas
foram ouvidos. A República não foi mantida devido ao
ataque externo – os falangistas e monarquistas – e interno –
pois os comunistas e anarquistas não queriam nem República
nem Monarquia, mas sistemas sociais alternativos, a 'ditadura
do proletariado' OU a 'livre autonomia', respectivamente.
(Lembrar do 'racha' entre os próprios comunistas: divididos
entre 'estalinistas' e 'trotskistas'.)

A luta se arrastou – com cidades e vilarejos ora em mãos
fascistas ora em mãos republicanas – que vingavam-se
vergonhosamente quando da re-conquista. (Ambos os lados
se julgavam numa 'cruzada' – onde tudo era permitido e
tolerado, desde que se conquistasse a 'vitória') Assim, os
esquerdistas (republicanos e anarquistas) matavam religiosos,
e os falangistas assassinavam sindicalistas, líderes camponeses,
artistas (o poeta Lorca é um triste exemplo), os comunistas
atacavam anarquistas, em suma, o caos social, uma das
guerras fraticidas mais vergonhosa que o ser humano
pôde testemunhar. (E foi testemunhada! Lá estavam os
escritores Ernest Hemingway, André Malraux, George Orwell,
Pablo Neruda, Saint-Exupéry, além do fotógrafo Robert Capa)

As forças de 'direita' venceram pois souberam se unir apesar
de suas diferenças, enquanto as 'esquerdas' lutaram entre si,
apesar de suas semelhanças: desejavam mais JUSTIÇA
SOCIAL, porém sendo radicais, não souberam apoiar a
democracia republicana (ainda que fosse burguesa), que caiu
aos pés da ditadura fascista do General Franco, militar rebelde.

Além disso, o 'jogo duplo' do ditador Josif Stálin (que não era
nem socialista, nem comunista, mas um sedento pelo poder,
exercido junto com uma burocracia oportunista) acabou por
fraturar a 'esquerda radical', incapaz de construir uma
alternativa às forças reacionárias, que restauram as castas e
injustiças de renda e de decisão, fortalecendo o regime de
exceção.

(Repetiu-se o que aconteceu na Alemanha: os radicais
comunistas se mostraram contrários a República de Weimar,
burguesa e social-democrata, que usou as forças direitistas
para sufocar os esquerdistas, que por fim, se viram sob
um regime ainda pior: o Nacional-socialismo (sic!) de
Adolf Hitler, um monstro a se esconder sob a pele de médico.)
mais sobre a Guerra Civil Española :::::::::

sábado, 16 de janeiro de 2010

A Itália imperialista / Guerra na Etiópia





A Itália estava preparada para a Guerra?

Já analisamos o fenômenos dos Fascismos (vejam o
blog http://leonardomagalhaens.zip.net/ ) enquanto
sistema político e econômico, e suas causas e
consequências sociais e culturais, mas ainda não
abordamos a situação militar da Itália, sob o regime
do ditador, o Duce Benito Mussolini.

A Itália, também atrasada na 'corrida imperialista',
buscava vantagens comerciais e coloniais no norte
da África, atuando na (atual) Líbia, além da Eritreia e
da Somália italiana, e depois na Etiópia (Abissínia).
Os italianos possuíam fortalezas ao longo do Mar
Mediterrâneo, em suas colônias na Tripolitânia e na
Cirenaica, entre as colônias francesas (à oeste) e
inglesas (à sudeste e leste), que usavam como 'rota
estratégica' para avanços ao extremo leste do continente
(nas bordas do Mar Vermelho).

Assim, a Guerra da Etiópia (outubro 1935 a maio 1936)
foi apenas mais um passo imperialista da Monarquia
italiana aliada ao interesses burgueses de dominação
econômica e territorial. Nada diferente do que faziam a
Grã-Bretanha e a França, exceto o detalhe: o 'imperialismo'
já tinha péssima imagem (assim os retardatários Itália e
Alemanha – além de Japão – precisaram fazer guerra
para conseguir algum espaço meio aos Impérios britânico
e francês.)

Sabemos que o Fascismo italiano foi um populismo aliado
à Monarquia e ao Exército, no sentido de abafar os
movimentos populares de Esquerda – social-democratas,
socialistas e comunistas, além de anarquistas – e manter
a aliança burguesia-monarquia, não que através de uma
'diarchia' Rei – Duce. O Rei Vittorio Emanuele III cedia o
governo ao ditador Mussolini, para sufocar as manifestações
'subversivas' que clamavam por justiça social. E o Exército –
representado pela velha guarda, p.ex. Emilio De Bono –
garantia a face de 'Ordem' e de 'legalidade' ao novo regime
fascista. (O mesmo representa o apoio do General Ludendorff
ao golpista Adolf Hitler, em 1923
)(1)

Assim o imperialismo exibia sua face claramente militarista
em campanhas no norte da África (e depois seria a tragédia
na Albânia e na Grécia...), além de apoiar as forças direitistas
(falange, monarquistas e católicos) contra os esquerdistas
(republicanos, socialistas, comunistas, anarquistas) na
Guerra Civil Espanhola (1936-39)

Guerra d'Etiopia (3 ottobre 1935 – 9 maggio 1936)


Tropas italianas invadiram a Etiópia (Abissínia) a partir
de posições ao norte (Eritreia) e à leste (Somália italiana)
e avançaram rapidamente, de início, até se defrontarem
com a resistência das tropas do Negus (rei) Hailè Sellassiè,
o que visivelmente atrasou a campanha dos italianos.
(Segundo as fontes disponíveis, as tropas invasoras somavam
330 mil, enquanto os defensores eram cerca de 500 mil)

Com armamentos já obsoletos na Europa, sejam canhões
ou carros armados, as tropas italianas não alcançaram de
imediato a capital Addis Abeba. Em novembro de 1935, o
General Emilio De Bono é promovido a Maresciallo d'Italia e
devia ceder o comando ao General Pietro Badoglio. De Bono
recebe ainda a “Ordine militare di Savoia”. Após a vitória
italiana em Addis Abeba em maio de 1936 é proclamado
o Império.

As perdas italianas totalizaram cerca de 4 mil mortos (sendo
quase mil civis) e os etíopes perderam 275 mil (mortos) e quase
500 mil feridos (a maioria civil). Um massacre – um verdadeiro
massacre! - que aos fascistas soou como a mais bela glória
imperial ! (O que lembra muito os massacres promovidos
pelos britânicos na conquista do Sudan – segundo atestam
os próprios relatos do imperialista Winston Churchill, escritos
em 1898
) (Mas poderiam os italianos enfrentarem exércitos
europeus? Eis a dúvida.)

Para garantir uma posição de força, os fascistas mantinham
o 'fervor militarista' em alta junto ao povo – que adora ficar do
lado de quem está 'vencendo' – e prontamente decidiu intervir
no conflito que então se iniciava na Espanha. Em julho de
1936, o General Franco sublevou os militares rebeldes contra
a Segunda República Espanhola.

Nota:

(1)Ainda que a maioria dos fascistas fosse 'monarquista', muitos
haviam saído de movimentos populares – o próprio Mussolini
teria sido 'socialista' – e não hesitariam em apoiar uma República,
caso houvesse a oportunidade. Mas com o 'arranjo' político feito
com o Rei – após a
Marcha sobre Roma, em outubro 1922 – os
fascistas, como bons oportunistas que são, se tornaram um dos
suportes da Monarquia. Entre os 'monarquistas' pode-se destacar
De Vecchio, De Bono, Ciano, Balbo, etc. Entre os 'republicanos' –
que depois fundaram a efêmera República de Salò, com apoio
nazista – encontraram-se Scorza, Farinacci, Arpinati, Starace,
Pavolini (o Goebbels italiano), dentre outros.

Leonardo de Magalhaens




Videos sobre a Guerra na Etiópia

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Drôle de Guerre: o afundamento do Graf von Spee





Jean-Paul Sartre sobre o afundamento do Graf von Spee

(Diário de uma Guerra Estranhaa Drôle de Guerre)
(Les Carnets de la Drôle de Guerre, 1983)
trad. Aulyde Soares Rodrigues

O escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre foi
convocado, no início da Guerra, para atuar no
serviço de Meteorologia, na Alsácia, e vivenciou
a ‘guerra falsa’ (Drôle de Guerre)

(dezembro/1939)
quarta-feira, 20

O caso Graf von Spee. Prudência e astúcia da
parte dos aliados. Foi anunciado para o mundo
inteiro que o Renown e o Ark Royal esperavam
o navio alemão na saída do porto. Ele ficou com
medo e afundou. O Renown e o Ark Royal estavam
a mil milhas do local. Nas vésperas do nosso recuo
secreto, no começo de outubro: os alemães,
enganados pela resistência de alguns postos
avançados, avançam em campo aberto e são colhidos
por uma chuva de balas. Comparar com os princípios
de 14, o heroísmo, a guerra jogo-franco. Desta vez
fazemos uma guerra de vigaristas, de mentirosos.
Uma guerra contra a honra militar. Os alemães
fazem o mesmo, aliás: suicídio do Graf von Spee.
Hitler diz a Rauschning*: “Tudo o que tenho a fazer
é formar cavaleiros
.” Os jornais franceses, que não
o temem, tiveram a audácia de zombar dele por
causa do abandono do Graf von Spee. Mas era
preciso manter por algum tempo, aos olhos da
retaguarda, a lenda da honra militar. Na verdade
a guerra se faz contra ela [a honra militar], assim
como ela se faz contra a guerra de 14. Será arruinada
para sempre. Felizmente. É certo que sempre houve
estratagemas de guerra. Mas esta pretende usar
somente os estratagemas. Com mais dois ou três
anos desse tipo de guerra, a noção de coragem
estará realcionada com a paz; a noção de covardia,
com a guerra. Aliás, ao que parece, é sob esse
aspecto de tédio sem grandeza que ela é vista
no estrangeiro. Meu aluno Christensen escreveu-me
da Noruega: “Há uma linha Mannerheim que defende
Helsinque. Essa região faz lembrar a guerra de
posições que o senhor conhece. E lá se morre –
pelo menos no sentido figurado – de tédio. Espero,
entretanto, que seus escritos ocupem seu tempo
.”

*Ex-amigo pessoal do Führer, Rauschning voltou-se contra o nazismo. Escreveu Hitler me Disse e A Revolução do Niilismo. (N. do E. francês)


mais sobre o Graf von Spee em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Coura%C3%A7ado_Graf_Spee

http://www.naufragiosdobrasil.com.br/especialgrafspee.htm


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Winter War / Guerra de Inverno (parte 3)






The Winter War
A Guerra de Inverno

parte 3

Em março, com o armistício, os finlandeses acabaram por
ceder aqueles territórios que negaram nas negociações
de outubro e novembro de 1939, ao custo de 73 mil baixas
(mortos, feridos e desaparecidos) – enquanto as
casualidades (feridos, mortos, desaparecidos) russas
são calculadas em quase 400 mil !

A Guerra de Inverno (Winter War) mostrou aos líderes de
todo o mundo a ineficiência da ofensiva russa, e este
péssimo desempenho do Exército Vermelho (Red Army)
causou profundo desprezo em Hitler, que passou a
subestimar as forças armadas da URSS.

O ditador alemão queria 'neutralizar' os britânicos e franceses,
e em seguida iniciar a 'cruzada contra o bolchevismo' (ou a
'conquista do espaço vital') na campanha contra a Rússia.
Em 1940, Hitler, em vários momentos, sondou os militares
do Estado-Maior sobre as possibilidades e preparativos para
uma campanha do outono. Mas os generais disseram ser
um ataque impraticável.

Hitler poderia unir-se com a GBR contra a URSS, ou usar
o Pacto com a URSS numa estratégia anti-britânica. Isso até
a visita de Molotov a Berlim, em novembro de 1940, quando
o Führer percebeu que o 'casamento de conveniência' com
os soviéticos não duraria muito (enquanto Stálin fazia tudo
para que durasse – cumprindo os acordos)

Depois Hitler visita a Finlândia em 1942 , quando do aniversário
do Marechal Mannerheim, em plena Guerra da Continuação,
entre Finlândia e URSS.


mais sobre a Winter War
em http://www.winterwar.com/War%27sEnd/casualti.htm
http://www.kaiku.com/winterwar.html

e também
em http://www.historylearningsite.co.uk/winter_war_1939.htm


por

Leonardo de Magalhaens

http://leonardomagalhaens.zip.net/

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A Guerra de Inverno (parte 2)





A Guerra de Inverno
A Guerra Branca

URSS X Finland


parte 2


Batalha de Suomussalmi (11 dez 39 – 8 jan 40)

A 163a Divisão Soviética avança no lago congelado
de Kianta rumo a cidade de Suomussalmi, mas
os finlandeses conseguem cercar a Divisão, e
cortar as linhas de suprimentos. Até 30 de dezembro,
a Divisão é toda destruída.

Outras forças finlandesas surpreendem, meio ao
gelo, a recém-chegada 44a Divisão Soviética,
em Raate, e destroem várias formções soviéticas
isoladas.

Em 22 e 23 de dezembro, as unidades finlandesas,
em grupos menores, atacam (e cercam em
emboscadas) as unidades russas, que sofrem
ataques concentrados até 5 e 8 de janeiro,
quando os russos retrocedem.

Em consequência das enormes baixas, em dezembro
de 39 e janeiro de 40 ocorre a reorganização do
Exército Vermelho, para a preparação da ofensiva
de fevereiro. Somente uma concentração de tropas
russas conseguirá romper as defesas finlandesas.


Em fins de dezembro, entretanto, os exército
soviéticos foram reorganizados e novas diretivas
expedidas; em princípios de fevereiro de 1940,
nova ofensiva russa foi lançada, conseguindo,
finalmente, eliminar alguns segmentos defensivos
da “
Linha Mannerheim”. Pouco a pouco, as
defesas finlandesas começaram a ceder e, a
12 de março, o bravo mas exausto exército finlandês
não teve outra alternativa senão depor as armas.
Durante os estágios finais daquela ignóbil campanha,
Zhukov serviu como chefe do Estado-Maior do
Exército Vermelho, em substituição a Shaposhnikov,
que se afastara temporariamente
.” (fonte: Zhukov/
O P Chaney Jr; Renes, 1976. p. 27)


mais sobre a Winter War em
http://www.winterwar.com/War%27sEnd/casualti.htm
http://www.kaiku.com/winterwar.html

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A Guerra de Inverno (Winter War) - parte 1






Guerra de Inverno / Guerra Branca

Parte 1

Enfrentando condições atmosféricas hostis, com temperaturas de 40 graus negativos, as tropas soviéticas (30 Divisões) partiram para uma ofensiva contra as tropas finlandesas (9 Divisões) da fronteira, em 30 de novembro de 1939. O 7o e 13o Exércitos de Infantaria não passam da Linha Mannerheim, ao sul, no Istmo de Carélia. Enquanto os 8o e 14o Exércitos de Infantaria atacam ao norte, acima do Círculo Polar Ártico.

Os russos enfrentaram as tropas finlandesas, em posições defensivas, ou se deslocando – em pequenos grupos – com esquis, usando táticas de guerrilha, e cercando as imensas tropas do Exército Vermelho. A dispersão dos russos, as condições de combate, a falta de suprimentos, foram as principais causas de baixas (incluindo as terríveis 'queimaduras de gelo' (frostbite)


a 30 de novembro de 1939, um ataque total russo pelo istmo de Carélia, o corredor
terrestre que liga o sul da finlândia à região de Leningrado. Embora desfechado com o apoio
de considerável volume de tropa, ele foi repelido, assim como os ataques ao longo da fronteira terrestre russo-finlandesa, acima e abaixo do Círculo Ártico. Somente no começo de fevereiro
de 1940, depois da concentração de reforços da ordem de quase um milhão de soldados, e de prolongado bombardeio das posições defendidas pelos finlandeses na “
linha Mannerheim”, é
que o Exército Vermelho finalmente conseguiu penetrar, obrigando os finlandeses a pedir paz um mês depois
.”
(fonte: Barbarossa, John Keegan; Renes, 1974. p. 23)

A “linha Mannerheim” é uma faixa de fortificações defensivas, com bunkers de concreto e posições de artilharia, construída em 1920-24, e 1932-39, por ordens do Marechal Barão Carl Emil Mannerheim ( o mesmo que derrotou os Guardas Vermelhos na Guerra Civil Finlandesa, contando com apoio germânico). A linha defensiva ainda não estava completada em novembro de 1939, quando do ataque do Exército Vermelho.

Principais ataques russos se concentraram (no sul) rumo as cidades de Salmi, Pitkaranta, Tahmajarvi, Iomantsi, Khumo; e (no norte) rumo as cidades de Salla, Markajarvi, Kuolojarvi,
Petsamo, Salmijarvi, Nautsi. O avanço para Suomussalmi resultou numa importante batalha em dezembro. (Veremos mais sobre a Batalha de Suomussalmi) (interessante detalhe geográfico: o topônimo 'jarvi'/'järvi' indica 'lago', naquela é considerada a terra dos mil lagos, the land of the thousand lakes, Tuhansien järvien maa...)

Finlandeses usam equipamento alemão (assim como a Guarda Branca recebeu apoio germânico quando das batalhas da Guerra Civil, contra os Guardas Vermelhos, com apoio soviético)

Grã-Bretanha e França queriam intervir em apoio aos finlandeses, no momento em que a resistência da Finlândia 'comoveu todo o mundo livre', como diziam os líderes (ditos) democratas. (É de se pensar se a Finlândia era mesmo 'democrata') Então seria assim: finlandeses com apoio alemão, anglo-francês contra a URSS (que tinha um pacto com o III Reich!)

Durante as primeiras semanas de luta, os finlandeses infligiram baixas consideráveis aos soviéticos e a campanha ofensiva desfechada pelo General K. A . Meretskov fracasou de todo.” e “A colaboração entre os blindados, a artilharia e a infantaria – tão decisiva na vitória obtida em Khalkhin-Gol – inexistiu.” (fonte: Zhukov/ Otto Preston Chaney Jr; Renes, 1976. p. 27)

Quando o Marechal Tomoshenko assume as tropas em janeiro de 1940, as desvantagem finlandesa é de 50:1 (ou seja, 50 russos para cada 1 finlandês) e ainda assim os russos sofreram grande resistência.


Mais sobre a Winter War em