quarta-feira, 12 de maio de 2010

Churchill, o Primeiro-Ministro, assume a Guerra





Churchil – O Lorde da Guerra
Ronald Lewin
Biblioteca do Exército Editora / 1979.
trad. Cel. Álvaro Galvão
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“Na véspera da sua nomeação [de Churchill] ocorreu um episódio que lançou dúvidas sobre a estabilidade e a justeza do seu julgamento: a campanha da Noruega. Chamberlain arcou com toda a culpa por este fracasso – e com razão; como Primeiro-Ministro, cabia-lhe manter um controle firme sobre todas as ações, mas, no caso da Noruega, não soube assumir o controle de uma operação combinada e, assim, conservar Churchill no seu devido lugar. Entretanto, como já era evidente naquela época, e ficou devidamente comprovado desde então, a maior parte dos grandes erros – erros na estratégia e na tática, erros de organização fáceis de evitar – ocorreram por culpa de Churchill. De cabeça quente, desnorteado e interferindo em tudo, o Primeiro Lorde do Almirantado parecia ter que embaralhar as coisas. No princípio, parece que houve grande dúvida tanto em Whitehall como em Westminster [expressão equivalente a 'no Governo e no Congresso', N. do T.] sobre a sua fidedignidade. Ismay, que logo iria se tornar seu adepto fiel, registrou na autobiografia que escreveu a sensação de desalento que se espalhou pelos estados-maiores das diversas forças armadas quando foi anunciada a nomeação de Churchill. Colville chega a ser rude a este respeito: “Em maio de 1940, a simples ideia de Churchill como Primeiro-Ministro provocava arrepios na espinha dos assessores em Downing Street 10. Os sentimentos ali existentes eram compartilhados pelos gabinetes dos ministros e pelos parlamentares.”


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pp. 24/25

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Churchill possuía diversas inaptidões para um Grande Comandante – inaptidões tanto intelectuais como temperamentais. Só parece justo admiti-las e relacioná-las depois de tentar uma avaliação do seu desempenho naquele papel, pois foi bem-sucedido apesar das inaptidões. Os defeitos do caráter de Hitler tiveram importância fundamental; os de Churchill, importância periférica. As imperfeições não atingiram o cerne do seu poder. E ele contava com qualidades notáveis. Ao assumir a função de Primeiro-Ministro, Churchill chegou a ela com as mãos limpas; mesmo aos olhos dos seus adversários, ele estava isento do pecado de apaziguamento. Além disto, em comparação com Roosevelt, ou com os ditadores, Churchill desfrutava de uma outra vantagem enorme. Seu campo de ação era o mundo. Dentro dele podia viajar livremente, locomover-se, como ele fazia magistralmente, toda vez que julgasse necessário.

Em virtude da sua posição especial, o Presidente dos Estados Unidos jamais conseguiu, como Churchill, pular pelos continentes em esforços improvisados para desatar os nós górdios. (Hitler, por sua vez, fechava-se em seu posto de comando, enquanto Stalin deixava-se enclausurado em Moscou.) E havia uma outra vantagem para Churchill, o Grande Comandante. Sua função constitucional não o impedia de visitar os locais de combate. (*) Sua presença constituiu uma inspiração para o combatente, pois ele esteve na sala de controle dos caças em 1940, no deserto egípcio, na parada triunfal em Trípoli, nas praias da Normandia, ao largo do litoral da França e na transposição do reno. Hitler dirigia a sua guerra pela mística, Stálin pelo terror e Churchill pela simpatia.
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*Nota: “Com o correr do tempo, infelizmente Hitler visitava a frente cada vez com menos frequência; na última fase, não apareceu mais. Assim, perdeu o contato com a tropa e não mais conseguia compreender o que ela sentia e sofria.” (Guderian, em “Panzer Lider”)
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pp. 34/35

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Churchill – o Lorde da Guerra





LdeM

sábado, 8 de maio de 2010

Noruega - Duelo Churchill versus Hitler





John Lukacs (1924- )
O Duelo Churchill X Hitler (2002)
[The Duel: The Eighty-Day Struggle
Between Churchill & Hitler
, 1990)
trad. Claudia Martinelli Gama
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(Operações militares na Escandinávia) p.28

Então surgiu um obstáculo [às negociações com a Grã-Bretanha] – mas um obstáculo que posteriormente aumentaria seu prestígio militar. Os britânicos e os franceses – logo veremos como e por que – estavam tentando abrir outra frente contra a Alemanha distante do oeste, no norte, provavelmente na Noruega. No outono anterior, após a Polônia, o Almirante Raeder começou a conversar com Hitler sobre a necessidade de ocupar a Noruega. Mas Hitler recusou. Só em março de 1940 se decidiu por um plano rápido e ousado, a fim de impossibilitar que os britânicos conseguissem uma pequena base na Noruega, para se antecipar a eles. Em 1 de abril, o almoço na Chancelaria, em Berlim, foi servido um pouco mais tarde do que de costume. Os generais reuniram-se em torno de Hitler. Suas palavras foram registradas no Diário de Guerra do Alto Comando do Exército. Elas nos revelam muito sobre a sua intenção e confiança na época. O Führer

descreve esta iniciativa [codinome “Weserübung”] não só como especialmente ousada, mas como uma das 'operações mais atrevidas' da história militar moderna. Exatamente por esse motivo [grifos meus] ele vê aí um dos fatores básicos do seu sucesso.

...Ele, o Führer, não é um homem que se esquive a decisões e lutas necessárias deixando-as para seus sucessores... Todas essas circunstâncias mostram que a situação da Alemanha é muito favorável, ela não poderia ser melhorada nos anos vindouros.

Ele próprio possui a coragem exigida para tal luta, ele também conhece pessoalmente quase todos os seus inimigos e os considera inexpressivos. Ele acha que sua personalidade é muito superior à deles.

Seu principal adversário na campanha norueguesa era Churchill. Ali, Hitler sem dúvida levou a melhor sobre ele. Assim, Hitler tinha razão para estar tão confiante em 10 de maio quanto estava em 1 de abril – se não ainda mais. Provavelmente, essa foi também a razão por que, naquele dia, ele parece ter prestado relativamente pouca atenção à notícia de que Churchill se tornara o primeiro-ministro britânico.



[Conflitos nas águas e terras nórdicas] p. 35 /36

Mas a guerra finlandesa ainda não terminara quando ocorreu um primeiro prelúdio do duelo, um incidente cujos encadeamentos iriam conduzir ao fatídico 10 de maio, quando principiou o duelo para valer entre Hitler e Churchill. Esse episódio envolveu não a Finlândia, mas a Noruega. Envolveu não carregamentos de minério de ferro, mas um choque de navios. O Altmark era um navio de abastecimento alemão, que transportava no porão marinheiros britânicos, prisioneiros, que haviam sido salvos e recolhidos pelo Graf Spee durante suas incursões iniciais no Atlântico Sul e, depois, transferidos para o Altmark. O Altmark avançava lentamente para o sul em águas territoriais norueguesas, dirigindo-se para um porto alemão. Churchill mandou um contratorpedeiro britânico segui-lo, atacá-lo, tomá-lo. Isso aconteceu em 16 de fevereiro, em Jössingford. (Depois disso, Vidkun Quisling e seus seguidores pró-alemães na Noruega chamariam os compatriotas pró-ingleses de “Jössingers”.) A abordagem foi rápida e bem-sucedida. Os prisioneiros britânicos no porão ouviram o brado dos seus libertadores: “A Marinha está aqui!” Esse pequeno drama reverteu em benefício de Churchill. Mas fez Hitler ficar alerta e alterar os planos. Ele estava então convencido de que Churchill queria apoderar-se da Noruega. Muito bem: se anteciparia a Churchill. Três dias após o episódio do Altmark, convocou o general Nikolaus von Falkenhorst. Em 1918, esse general havia comandado o desembarque de uma pequena força alemã na Finlândia. Hitler disse a Falkenhorst: “Sente-se e conte-me o que fez.” O general explicou. Em seguida, enquanto andava de um lado para o outro, Hitler apresentou a Falkenhorst uma lista muito impressionante de razões por que tinha de ser a Noruega. (A proteção das importações de minério de ferro era o item final e o menos importante em sua lista.) Em 1 de março – a guerra finlandesa ainda não havia terminado -, Hitler ordenou que a invasão da Dinamarca e da Noruega passasse a ter precedência sobre a campanha da Europa ocidental.

É importante reconhecer que Churchill fizera o primeiro rascunho (um curto memorando) acerca da colocação de minas nas águas costeiras da Noruega já em 27 de novembro de 1939 – ou seja, antes de irromper a guerra finlandesa. A Marinha real distribuiria minas nas águas norueguesas quer o governo norueguês as quisesse, quer não. Se os alemães se apresentassem para lutar (e Churchill esperava que assim fizessem), a marinha estaria lá em condições de derrotá-los, e então os britânicos se apossariam dos principais portos da Noruega. Assim, a Guerra Relutante [a Drôle de Guerre] evoluiria para algo importante e efetivo. O teatro da guerra se estenderia até a Noruega,onde a marinha deveria levar vantagem.

Foi só depois de complexas e cansativas negociações que, no início de abril, os gabinetes britânico e francês tomaram a decisão de acordo com a vontade de Churchill. Churchill estava então encarregado da questão norueguesa. Na realidade, estava mais envolvido no efetivo planejamento naval do que Hitler. Além disso – algo com frequência desconsiderado pelos historiadores e biógrafos -, o início de abril correspondia a uma fase em que a harmonia e a colaboração entre ele e Chamberlain haviam atingido o ponto máximo. Em 4 de abril, Downing Street anunciou que, dali em diante, o ministro da Marinha dirigia o Comitê de Coordenação Militar, que incluía os chefes do estado-maior. “Entre outros ministros militares, que também integravam o Ministério da Guerra, eu era o 'principal entre iguais'”, escreveu Churchill em suas memórias de guerra. Em seguida, esforçou-se para explicar que “eu não tinha, entretanto, poder para tomar ou fazer cumprir decisões”. O alto comitê era, afinal, ainda assim um comitê, um “grupo variável e amistoso, mas disperso”. Tudo isso era verdade, mas a responsabilidade pela campanha norueguesa ainda cabia a ele.

Em 5 de abril, Chamberlain falou na Câmara dos Comuns. Sobre Hitler, ele disse: “Uma coisa é certa: ele perdeu o trem.” Essa frase infeliz iria em breve atormentá-lo. (*) No final do dia 7, começou a colocação de minas britânicas ns águas norueguesas. Ao longo do dia 8, começaram a multiplicar-se as notícias sobre um movimento de uma frota alemã em direção ao norte. Em meio a uma borrasca, uma força maior e mais potente da marinha real se dirigiu para a Noruega. Alguns dos navios transportavam algumas unidades britânicas que desembarcariam na Noruega quando fosse necessário. Eles perderam o trem alemão – ou melhor, a frota alemã. Ao amanhecer do dia 9, as tropas alemãs invadiram a Dinamarca e desembarcaram em Copenhague, capturando a capital, o governo e o rei. Ao mesmo tempo – essa era a operação 'atrevida' -, desembarcaram em vários portos da Noruega, inclusive Narvik no extremo norte, onde ninguém, inclusive Churchill, esperara que chegassem.

(*)Não que Churchill não houvesse dito tolices. Na Câmara dos Comuns, em 11 de abril: “Na minha opinião, que é compartilhada pelos meus experientes conselheiros, Herr Hitler cometeu um sério erro estratégico... Quanto a mim, considero que a ação de Hitler ao invadir a Escandinávia é um erro estratégico e político tão grande quanto o que foi cometido por Napoleão em 1807, quando invadiu a Espanha.”
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John Lukacs (1924- )
O Duelo Churchill X Hitler (2002)
[The Duel: The Eighty-Day Struggle
Between Churchill & Hitler
, 1990)
trad. Claudia Martinelli Gama
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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Retirada aliada na Escandinávia - 4 maio 1940

Diário de Berlim
William Shirer

trad. Alfredo C. Machado


1940

BERLIM, 4 de maio


Os ingleses acabam de efetuar uma retirada desordenada de Namsos, ao norte de Trondheim, completando assim o fracasso do auxílio aliado aos noruegueses, na parte central do país.

Onde estava a Home Fleet, que Churchill há quinze dias anunciou que varreria os alemães das águas norueguesas? Hoje assisti a um noticiário cinematográfico alemão. Mostrava as tropas nazistas efetuando o desembarque de tanques e artilharia pesada em Oslo. Com exceção do emprego de submarinos, aliás em pequeno número, parece que os Aliados não fizeram nenhum esforço realmente sério para impedir a chegada de suprimentos alemães à Noruega, via Oslo. Nem sequer chegaram a arriscar seus destroyers nas águas do Skagerrak e do Kattegat, para não falar nos cruzadores e couraçados.


Será que nesta curta campanha norueguesa o poder aéreo demonstrou a sua superioridade sobre o poder moral? Pelo menos nas batalhas desenroladas nas proximidades dos campos de pouso? Em 1914-1918, uma ofensiva alemã como a que acaba de acontecer estaria fora de cogitações. Mas, com a Luftwaffe controlando os campos de pouso da Dinamarca e da Noruega, a esquadra aliada não somente não se aventurou até as águas do Kattegat, a fim de sustar a remessa de tropas e suprimentos alemães para Oslo, como nem sequer tentou entrar em ação em Trondheim, Bergen ou Stavanger, com a única exceção do bombardeio do aéredromo deste último porto, que se prolongou por 80 minutos, logo no início da campanha. Os alemães agora já afirmam que a aviação demonstrou a sua superioridade sobre a marinha.

Façamos a resenha da situação: os aviões de Göring conseguiram realizar quatro façanhas de importância vital nessa campanha da Noruega:


(1)Mantiveram a rota marítima de Oslo, através das águas do Kattegat, completamente livre das unidades inglesas, permitindo que o grosso das tropas alemãs de terra fosse bem suprido de homens, artilharia e tanques.
(2)Impediram (ou conseguiram desencorajar) a Home Fleet de atacar os portos de Stavanger, Bergen e Trondheim, de importância vital para os nazistas.
(3)Com o bombardeio constante dos portos aliados de desembarque, tornaram quase impossível para os ingleses efetuar o desembarque de artilharia pesada e tanques, fato que, aliás, foi admitido pelo próprio Chamberlain.
(4)Com o bombardeio e o metralhamento das posições inimigas tornaram extremamente fácil às tropas alemãs o avanço através de um território cheio de dificuldades.
Noutras palavras, revolucionaram completamente a guerra, tanto no próprio Mar do Norte como nas suas vizinhanças.


(...)

W. Shirer


Comentário meu: Em outros trechos do Diário de Berlim, o jornalista norte-americano William Shirer demonstra o quanto a Aviação nazista – Luftwaffe – era eficiente em apoiar as forças terrestres do Exército alemão e ao mesmo tempo atacar as posições de resistência dos exércitos aliados (poloneses, ingleses, franceses, belgas, holandeses, principalmente). Durante a campanha na França, Shirer classifica de 'criminosa' a política dos Aliados de não investirem no desenvolvimento da aviação, “Que preço a Inglaterra e a França estão agora pagando pela criminosa negligência em que deixaram a sua aviação!” (AACHEN, 21 de maio [1940])

por Leonardo de Magalhaens
http://escritospoliticoslm.blogspot.com

quarta-feira, 28 de abril de 2010

abril 1940 - Invasão da Noruega







Diário de Berlim
William Shirer

trad. Alfredo C. Machado

1940
BERLIM, 11de abril

Londres anuncia que Bergen e Trondheim foram recapturadas pelos Aliados. O Alto Comando desmente categoricamente a informação. Como desmente também as notícias veiculadas de Londres sobre uma grande batalha naval no Skagerrak – teatro da batalha da Jutlândia, na Grande Guerra. As únicas perdas navais confessadas até o momento são a do cruzador Blücher, de 10.000 toneladas, ocorrida no fiorde de Oslo, e do cruzador ligeiro Karlsruhe, de 6.000 toneladas, ao largo de Kristiansand, ambos afundados pelas baterias norueguesas na manhã de 9 do corrente.

Soube que Hitler advertiu a Suécia das terríveis consequências que lhe traria uma atitude inamistosa, assumida nas atuais circunstâncias. Tanto quanto sei, os suecos estão extremamente amedrontados, nada farão para auxiliar os seus irmãos noruegueses e, mais tarde, receberão também a parte que lhes toca. É estranho como essas pequenas nações preferem ser tragadas pelo Führer, uma de cada vez.

Um porta-voz do Ministério do Exterior declarou-nos ainda hoje que o Presidente do Parlamento Norueguês, Hambro, nada mais era que “um sujeito sujo e judeu”. Agora, vê-se que o homem com quem os nazistas contavam na Noruega é um antigo Ministro da Guerra, de nome Vidkun Quisling, que, segundo parece, dispunha de uma forte e eficiente “quinta-coluna”. Um dos funcionários da Wilhelmstrasse revelou-me que Quisling seria o Primeiro-Ministro da Noruega. O Boersen Zeitung queixa-se da “incompreensível atitude do Rei Haakon... Pela sua atitude inflexível, o monarca mostrou estar muito mal aconselhado e não ser o verdadeiro defensor dos interesses de seu povo.”

Hoje à noite a BBC diz que Churchill declarou perante a Câmara dos Comuns que “Hitler cometeu um grande erro estratégico” e que a esquadra britânica vai agora tomar conta do litoral norueguês e afundar todos os navios que encontrar no Skagerrac (sic) e no Kattegat. Espero que esteja certo.

(nota minha:)
Skagerrak e Kattegat são os mares estreitos entre a península da Jutlândia (onde está a Dinamarca) e a Escandinávia (Noruega e Suécia), e fazem a conexão entre o Mar do Norte e o Mar Báltico (ou Ostsee, em alemão)

BERLIM, 14 de abril

Até que enfim descobri como os alemães, sem possuírem uma esquadra adequada, ocupraram os principis portos noruegueses, situados ao longo de um litoral de mais de mil e seiscentos quilômetros de extensão, mesmo às barbas da Home Fleet. As tropas alemãs, juntamente com seus canhões e respectiva munição, foram transportadas a seu destino em cargueiros que ostensivamente se achavam a caminho de Narvik a fim de transportar o minério de ferro sueco.
Esses cargueiros, como aliás vinham fazendo desde o início da guerra, navegavam dentro dos limites dos cinco quilômetros das águas territoriais norueguesas, escapando assim de serem descobertos pelas belonaves inglesas! E quanta ironia! - foram mesmo escoltados até os objetivos visados pelos próprios navios de guerra noruegueses, que tinham instruções de protegê-los contra os ingleses!

Isso, entretanto, não explica por que motivo os ingleses deixaram uma grande parte da esquadra alemã – 7 destroyers, 1 cruzador pesado e 1 couraçado – subir toda a costa norueguesa sem ser pressentida.

Os círculos navais alemães admitem que os seus 7 destroyers foram destruídos por uma força naval britânica numericamente superior durante o combate travado ontem em águas de Narvik, afirmando que, entretanto, continuam de posse da cidade. Todavia, os jornais de amanhã dirão: REPELIDO ATQUE INGLÊS CONTRA NARVIK. Quando mostrei, hoje à noite, uma das edições dos matutinos que vão aparecer amanhã a um capitão da Marinha, ele não pôde deixar de sentir-se envergonhado, praguejando contra Goebbels.

Soube que o General von Falkenhorst fez publicar a seguinte proclamação em Oslo: “O governo norueguês rejeitou várias propostas de cooperação. Assim, é o povo norueguês que deve decidir agora sobre o destino de sua pátria. Se esta proclamação for obedecida, tal comoa conteceu na Dinamarca, a Noruega será poupada aos (sic) [dos] horrores da guerra. Entretanto, desde que seja oferecida qualquer nova resistência e rejeitada a mão estendida com inteções tão amistosas, então o Alto Comando Alemão ver-se-á obrigado a agir com meios mais violentos para quebrar inteiramente essa resistência.”

Hitler está plantando na Europa uma semente que, um dia, destruirá não apenas ele próprio como também a sua nação.

(nota minha:)
General von Falkenhorst foi o Comandante alemão responsável pela Operation Weser-Exercise, ou Unternehmen Weserübung [Exercício Weser], o codinome da Invasão da Dinamarca e da Noruega em abril de 1940. Segundo consta, o General não planejou a Invasão através de mapas militares, mas usando um guia de turismo Baedeker. O que mostra uma grande dose – para dizer o mínimo – de improvisação e imaginação. A aventura nazista ainda levaria à improvisações mais desastrosas.

Leonardo de Magalhaens


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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Hitler queria a Guerra - mas os Generais alemães não?




Hitler queria a Guerra - mas os Generais alemães não?



fonte: FEST, J. “Hitler” (1973; BRA, 1976)
(trad. Francisco Manuel da Rocha Filho;
Ana Lúcia Teixeira Ribeiro; António Nogueira Machado)
Livro VII(Vencedor e Vencido)
Capí­tulo 1 (O Estrategista)
(p.744)
"A 'crise dos oficiais' do outono de 1939 teve implicações que se
estenderam no tempo. De acordo com sua natureza, que não
admitia senão sentimentos inteiriços, totais, Hitler, daí­ em diante,
nunca teve muita confiança na lealdade de seus generais, nem
na validade de seus conselhos técnicos; e a impaciência com
que se pôs imediatamente à frente de suas tropas, assumindo
pessoalmente o papel de general-chefe, tinha origem nesses
acontecimentos. Por outro lado, a fraqueza e subserviência
de espí­rito demonstradas novamente pelos oficiais generais,
muito particularmente no que respeitava ao
Alto Comando do Exército (OKH), vieram ao encontro de sua
intenção de suplantar seus generais, reduzindo o funcionamento
do comando militar a funções puramente mecânicas. Desde os
preparativos da campanha-relâmpago contra a Dinamarca e
a Noruega,com a qual contava garantir o controle do minério
sueco, bem como instalar uma base de operações para sua
luta contra a Inglaterra, Hitler eliminou totalmente o OKH.
Depois disso, adiou a execução do projeto a um Estado-Maior
‘particular’ do Alto Comando da Wehrmacht (OKW), realizando,
assim, no domínio da hierarquia militar, o sistema de instâncias
rivais entre si, um dos postulados do exercí­cio de sua autoridade.
Suas hipóteses se concretizaram brilhantemente quando o
empreendimento altamente perigoso do iní­cio de abril de 1940
‘operação que contrariavatodos os princí­pios fundamentais da
orientação de uma guerra marí­tima tradicional e que os
Estados-Maiores aliados tinham considerado impraticável’
terminou com uma vitória total. Desde então, nunca mais
encontrou oposição aberta por parte de seus oficiais generais;
para se ter uma ideia do grau de apatia deles, basta lembrar que,
depois da crise do outono, Halder tinha-se dirigido ao Secretário
de Estado von Weizsäcker, perguntando- lhe se não seria possí­vel
fazer pressão sobre Hitler arranjando 'uma profetisa (pitonisa);
se comprometia a arranjar um milhão de marcos para isso';
por outro lado, Brauchitsch tinha dado a um dos seus visitantes
a impressão de que estava 'completamente liquidado, esgotado’” (7)
[fonte de J. Fest:]
(7)H Groscurth, “Tagebücher eines Abwehroffiziers 1938-1940” , p. 233.

sábado, 10 de abril de 2010

Shirer's Diário de Berlim - 8 e 9 abril 1940



William Shirer
Diário de Berlim
Volume 2 (1940-1941)
trad. Alfredo C Machado

BERLIM, 8 de abril

Os ingleses anunciam que minaram as águas territoriais norueguesas a fim de impedir a passagem dos cargueiros alemães que descem de Narvik carregados de minério de ferro. A Wilhelmstrasse afirma que “A Alemanha saberá reagir”. Mas, como? Esta noite a cidade foi tomada por dois boatos que entretanto não podemos confirmar. Um deles diz que a esquadra alemã saiu para o Kattegat, ao norte da Dinamarca, a oeste da Suécia e sul da Noruega, rumando para o Skagerrak. O outro adianta que se está formando uma força expedicionária alemã em vários portos bálticos e que dezenas de navios de passageiros têm sido reunidos apressadamente a fim de transportá-la para a Escandinávia.

BERLIM , 9 de abril

Neste dia de primavera, Hitler ocupou mais dois países. Pela madrugada, as tropas nazistas invadiram os dois Estados neutros da Dinamarca e da Noruega, a fim de, conforme informa ingenuamente um comunicado oficial, “proteger a liberdade e a independência desses dois países.” Depois de doze curtas horas, parece que tudo está acabado. A Dinamarca, com a qual Hitler assinara um pacto de não-agressão válido por dez anos, apenas há doze meses, foi inteiramente subjugada, e todos os portos importantes da Noruega, inclusive a capital, já estão em poder das tropas alemãs. A notícia é de causar estupefação. Copenhague foi ocupada pela manhã, Oslo à tarde, Kristiansand à noite. Todos os grandes portos noruegueses, Narvik, Trondheim, Bergen, Stavanger, foram capturados. A forma como os nazistas conseguiram chegar lá – sob as barbas da Home Fleet – constitui impenetrável mistério. É verdade que a operação foi planejada e preparada há muito tempo e, com toda certeza, posta em execução antes que a esquadra inglesa tivesse minado as águas territoriais norueguesas, há dois dias. Isso porque para alcançar Narvik, partindo de qualquer das bases alemãs, seriam precisos pelo menos três dias.
...

William Shirer
Diário de Berlim
Volume 2 (1940-1941)
trad. Alfredo C Machado

Nota:
Home Fleet: é a frota da Royal Navy – Marinha Real britância - que protege as águas territoriais do Reino Unido. Durante a Segunda Guerra Mundial, os comandantes foram (fonte: Wikipedia)

Sir Charles Forbes (1939–1940),
Sir John Tovey (1940–42),
Sir Bruce Fraser (1942–44)
Acting Admiral Sir Henry Moore (14.06.1944 - 24.11.1945)
Adm. Sir Edward Neville Syfret, RN (24.11.1945 - 07.01.1948)

Mais em

domingo, 4 de abril de 2010

Shirer - Diário de Berlim - março/abril 1940

do Diário de Berlim
do jornalista William Shirer (USA)

trad. Alfredo C. Machado



1940


BERLIM, 28 de março

A Alemanha não pode prosseguir na guerra, a menos que continue a receber os seus fornecimentos de minério de ferro da suécia, cuja maior parte é embarcada no porto norueguês de Narvik, em cargueiros alemães, que burlam o bloqueio descendo a costa norueguesa sempre dentro do limite das águas territoriais, onde se encontram a salvo dos ataques ds belonaves inglesas. Muitos de nós temos procurado descobrir por que motivo Churchill nunca tomou uma medida contra isso. agora parece que o Primeiro Lorde do Almirantado fez alguma coisa nesse sentido, uma vez que a Wilhelmstrasse diz que passará a observá-lo. para os alemães, trata-se de um assunto de vida ou morte. X garante-me que, se os destroyers britânicos invadirem as águas territoriais norueguesas, a Alemanha agirá imediatamente. a forma pela qual pensa agir é que não está bem esclarecida. a esquadra alemã não é uma adversária capaz de enfrentar a Home Fleet [frota britânica].

(...)


BERLIM, 2 de abril

Em minha irradiação desta noite disse o seguinte: "A Alemanha está agora à espera do que os Aliados pretendem fzer para sustar os carregamentos de minérios da Suécia, que, descendo pelo litoral norueguês, vão ter aos portos do Reich. Nesta capital já se aceita como ponto pacífico que os ingleses invadirão as águas territoriais escandinavas a fim de acabar com esse tráfego. Da mesma forma que também se aceita como conclusão lógica que a Alemanha reagirá... A Alemanha importa anulmente nada menos que dez milhões de toneldas de minério de ferro sueco. E não pode concordar, sem luta, com a suspensão desses fornecimentos."
Mas, como? S, um de meus amigos, murmura qualquer coisa sobre as tropas nazistas que estão sendo concentradas nos portos bálticos. Mas que pode fazer a Alemanha contra a esquadra inglesa?


William Shirer



Meu comentário:

O caso é que os nazistas já estavam fazendo algo. Imprevisíveis e imorais como eles eram. Enquanto Churchill planejava espalhar minas nas costas da Noruega, os nazistas já transportavam seus soldados ocultos em navios mercantes. Veremos como esta estratégia de 'guerrilha' surpreendeu os Aliados. Os nazistas realmente faziam uma guerra sem nenhuma honra. Se é que 'honra' significa algo para os fascistas.

(LdeM)