terça-feira, 23 de março de 2010

final da DRÔLE DE GUERRE (Sartre)



Drôle de Guerre
Diário de Uma Guerra Estranha

Jean-Paul Sartre
trad. Aulyde Soares Rodrigues (1983)
[1940]
Quarta-feira, 13 de março
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19h45m. Recebi pelo telégrafo a notícia da capitulação da Finlândia.Impressão dolorosa.
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Quinta-feira, 14 de março

A indignação povocada na imprensa francesa pela “covardia” sueca é exatamente a mesma provocada por nossa atitude, há três anos, para com a Espanha.

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Excelente observação em L'OEuvre:

“Entre os maus slogans que nasceram na guerra, um dos mais exasperantes é a famosa fórmula: 'O tempo trabalha para nós'
“Dizem isso com uma expressão finória ou idiota, piscando um olho. Por pouco não acrescentam: 'O tempo trabalha, deixem que ele trabalhe, não vamos incomodá-lo!'
“Como não percebem que esse é o melhor meio de provocar a indolência, a falta de imaginação e a falta de iniciativa?
“Será que o tempo trabalha para nós quando a Suécia e a Noruega passam do campo das democracias para o campo de Hitler?
“Será que o tempo trabalha para nós quando o heróico povo da Finlândia tem de submeter-se ao diktat russo-alemão?”
E esta observação de Déat: “O níquel e o ferro são adquiridos agora da Alemanha, os países escandinavos tornam-se clientes de Stalin e sobretudo de Hitler. Amanhã, sem dúvida os fiordes abrigarão os submarinos alemães, esperando que as bases aéreas sejam instaladas nessas terras domésticas.... Acabamos de perder os países escandinavos. Se insistirmos, vamos perder também os Balcãs. De duas uma: ou manobramos pelos flancos, em estilo militar, pois o golpe de frente, no centro, foi sensatamente excluído. E então utilizamos os flancos enquanto ainda há tempo. Ou então admitimos que não existem mais flancos e que toda a operação está interditada. Nesse caso é outra guerra que faremos. Não menos difícil, não menos perigosa, não menos total. Mas ela exige outra diplomacia, outra organização econômica, outra moral, outra propaganda, outros métodos de governo.”

Chaumeix (Paris-Soir): “Para a Inglaterra e para a França é uma derrota inconstestável.”(1)
Nossa primeira derrota. É recebida aqui com uma certa indiferença. Dizem: “Agora a guerra vai durar dez anos.”
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Nota (LdeM)

(1)o jornalista André Chaumeix, que escrevia para o Paris-Soir e tinha textos publicados na Revue des deux mondes , sempre alertava as autoridades francesas para o perigo do Hitlerismo, advindo do militarismo germânico. Chaumeix não acreditava na 'política do Apaziguamento' tão proclamada pelo Primeiro-Ministro Britânico Chamberlain. Não devia se negociar com o diatador alemão, em nenhuma hipótese.

Na verdade, a Segunda Guerra Mundial estava apenas a começar e durou seis anos. Longos e sangrentos, da Europa ao Pacífico, dos desertos ao norte da África às selvas úmidas da Indochina. E Sartre foi vítima desta Guerra, sofreu na pele a crueldade dos campos de concentração nazistas.

Leonardo de Magalhaens

domingo, 14 de março de 2010

13 março 1940 (Diário de Berlim - W. Shirer)



Diário de Berlim (1934-1941)
Berlin Diary (trecho)
volume 2
trad. Alfredo C Machado

(Fim da Guerra de Inverno)

BERLIM, 13 de março

Ontem à noite, em Moscou, foi assinada a paz entre a Rússia e a Finlândia. Trata-se de uma paz muito onerosa para a Finlândia, e hoje em Helsinki, segundo anuncia a BBC, o pavilhão nacional foi hasteado a meio mastro. Entretanto, Berlim está exultante. Por dois motivos: primeiro, a paz veio livrar a Rússia dos sacrifícios da guerra, de forma que, agora, pode fornecer algumas ds matérias-primas de que o Reich tanto necessita; e segundo, remove o perigo de a Alemanha vir a ter que sustentar uma luta numa frente situada no extremo norte, que seria forçada a alimentar por via marítima e que poderia levá-la a uma dispersão de suas forças militares, atualmente concentradas no Ocidente, prontas para o golpe decisivo, a ser desfechado a qualquer momento.
Acredito que, no fim de tudo, a Noruega e a Suécia pagarão pela recusa em permitir a passagem das tropas aliadas pelos respectivos territórios, para irem em auxílio da Finlândia. Aliás, para falar a verdade, nenhum desses dois países está colocado numa posição muito agradável. Ainda hoje, Braun von Stumm, do Ministério do Exterior, confirmou-me que Hitler informa tanto a Oslo como a Estocolmo que, se as tropas aliadas pusessem pé em território da Escandinávia, a Alemanha invdiria imediatamente a área do norte, a fim de rechaçá-las. O problema dos escandinavos reside no fato de que cem anos de paz acabaram por transformá-los em criaturas brandas, amantes da paz a qualquer preço. Assim, não tiveram coragem para encarar o futuro. E, quando chegar o momento de escolher o partido a tomar, então será demasiadamente tarde para isso, como sucedeu à Polônia. O Ministro do Exterior da Suécia, Sandler, é o único que parece enxergar a situação com toda clareza, mas, por isso mesmo, foi obrigado a demitir-se.

Agora, a Finlândia está à mercê da Rússia. Daqui por diante, sob o pretexto mais fútil, os soviéticos poderão invadir o país, uma vez que os finlandeses terão que lhes entregar todas as suas fortificações, da mesma forma como os tchecos foram obrigados a fazer, após o pacto de Munich. (Depois disso, a Tcheco-Eslováquia só durou cinco meses e meio.) Não chegamos a uma fase histórica em que as pequenas nações não mais se encontram em segurança e em que todas elas têm que viver sofrendo as imposições dos ditadores? Há muito que já se foram aqueles felizes dias do século XIX, quando qualquer país podia permanecer neutro e em paz, desde que assim o quisesse.

Com a paz na Finlândia, o assunto do dia em Berlim volta a ser a ofensiva alemã. X, que é alemã, vive a dizer-me que essa ofensiva será horrorosa: gases venenosos, micróbios, etc. Da mesma forma que todos os alemães, embora ela deva saber melhor, X acredita que a ofensiva será tão terrível que trará uma vitória extremamente rápida para a Alemanha. Nunca lhe passou pela cabeça que o inimigo também dispõe de gases venenosos e micróbios.

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William Shirer
Diário de Berlim
Volume 2 (1940-1941)
trad. Alfredo C Machado

domingo, 7 de março de 2010

Guerra Falsa & Campanhas nórdicas

Trecho de
A ALEMANHA DE HITLER
autor: Roderick Stackelberg
trad. A B Pinheiro de Lemos

sobre a “guerra falsa”e as “campanhas nórdicas"


A ”Guerra Falsa”


Na frente de oeste, por outro lado, a guerra assumiu a forma do que os alemães chamaram de Sitzkrieg (guerra sentada), enquanto no Ocidente era conhecida como ”Guerra Falsa”. Os franceses não se arriscaram a sair de suas posições defensivas na Linha Maginot, apesar da considerável superioridade - embora temporária - em número e material. A experiência da Primeira Guerra Mundial convencera os líderes militares franceses de que a defesa era mais importante que a ofensiva. A relutância em lançar um ataque foi também uma decorrência da persistente ilusão de que os combates ainda poderiam ser evitados, se os alemães não fossem provocados. O medo da retaliação aérea contra alvos civis foi outro elemento dissuasivo, assim como a bem fortificada Muralha do Oeste (também chamada de Linha Siegfried), corn 650 quilômetros, construída pelos alemães antes do início da guerra, da fronteira suíça até o norte da cidade de Aachen. Os Aliados achavam que o tempo estava do seu lado, que um bloqueio bastaria para acarretar o colapso alemão.


Depois da conclusão vitoriosa da campanha polonesa, Hitler propôs a paz, em troca da aquiescência Aliada para a ocupação alemã da Polônia. Ao oferecer ao mesmo tempo sua garantia de manutenção do Império Britânico, Hitler esperava fincar uma cunha entre a Inglaterra e a França. Quando sua oferta foi rejeitada, Hitler optou por desfechar uma ofensiva imediata na frente ocidental. Várias considerações persuadiram-no da necessidade de procurar uma solução rápida da guerra no Ocidente. A neutralidade soviética e americana talvez não durasse, a Itália podia vacilar em sua lealdade, e os países ocidentais provavelmente adquiririam mais poderio militar. As condições do tempo, no entanto, assim como a perda acidental dos planos de batalha alemães na Bélgica, em janeiro, forçaram um adiamento do ataque até a primavera seguinte.

A campanha escandinava


A Guerra do Inverno transferiu o foco dos planejadores militares para a Escandinávia. A Noruega serviu como o canal para a ajuda francesa e britânica aos finlandeses na Guerra do Inverno. E verdade, diga-se de passagem, que bem pouca ajuda de fato alcançou os finlandeses. Os alemães temiam, não sem razão, que os Aliados planejassem abrir uma segunda frente contra a Alemanha na Escandinávia. A 9 de abril de 1940, tropas alemãs invadiram a Dinamarca e a Noruega, a fim de impedir que os britânicos ocupassem esses países e interrompessem o fluxo de minério de ferro da neutra Suécia, que era vital para a economia de guerra da Alemanha. A Dinamarca caiu em doze horas, mas o exército norueguês lutou corn a maior tenacidade, corn o apoio dos Aliados, por várias semanas. A resistência final só terminou a 10 de junho, quando a campanha alemã contra a França já fora desfechada. Na Noruega, os alemães instalaram um regime subordinado, tendo no comando um ex-ministro da Defesa norueguês, Vidkun Quisling (1887-1945), cujo nome se tornaria um símbolo de abjeta colaboração.
Roderick Stackelberg

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Guerras Civis - embates de Ideologias


Guerras Civis

(aspectos ideológicos)

Guerra civil foi especialmente radical em países onde a Esquerda (ou melhor: os favoráveis a Democracia Social), era mais forte, com seus movimentos sociais, sejam com esforços de socialistas, comunistas, anarquistas, social-democratas, etc.

Encontramos o exemplo da Alemanha logo após a Primeira Grande Guerra (1914-1918) com a criação de conselhos de soldados e operários, nos moldes dos Soviets russos, que organizaram o 'caos' durante a queda da Monarquia germânica, enquanto parte do Exército apoiava os Guardas Brancos na Finlândia (1918) contra a Guarda Vermelha (apoiada pelo Exército Vermelho russo). Assim, a Guerra Civil finlandesa mostrou-se uma cisão entre russófilos e germanófilos, além de revolucionários e reacionários. Foi um conflito mais brutal na região sul e sudeste da Finlândia – região de forte industrialização e grande população – com destaque para a Batalha de Tampere (1918)

A mesma polarização – revolucionários e reacionários – mas então comunidtas X fascistas – ocorreu na Guerra Civil espanhola (1936-1939) com os reacionários, monarquistas, falangistas recebendo o apoio de infantaria italiana e aviação alemã (ambos de governos fascistas-centralistas-imperialistas) , enquanto os legalistas, os republicanos, os liberais, os socialistas, os anarquistas combatiam com as próprias forças, e os comunistas recebiam apoio soviético (nem vamos comentar as políticas bizonhas de Stálin), e as potências ocidentais ditas liberais e democráticas nada fizeram para interferir – exceto que muitos cidadãos volutnariamente se inscreveram nas Brigadas Internacionais e foram combater em prol da Democracia liberal (ou da Democracia Social) na Espanha.

Também a Itália quase sofreu uma 'guerra civil' na década de 20, com os embates entre socialistas, comunistas (estalinistas e trotskistas), anarquistas contra os fascistas – muitos saídos das fileiras do sindicalismo e do socialismo (como é caso do próprio Mussolini). Traidores dos movimentos proletários não faltaram nesse triste década de 20 – na Europa – que foi encerrada ainda mais tragicamente com a Quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.

Depois da Primeira Grande Guerra – que colocou proletários contra proletários – os movimentos sociais perceberam que não poderiam competir com os sistemas de produção capitalista. Perceberam que expansão e internacionalismo da luta anti-capitalista era essencial para o fortalecimento do socialismo, que não poderia ser um 'sistema' de competição com o capitalismo, mas precisaria substituir a 'competição' pela ' cooperação' – daí a proliferação de cooperativas, empresas com auto-gestão dos próprios operários, sistemas de apoio mútuo, uma previdência não estatal, mas descentralização entre os grupos de proletários, etc.

Contudo, com as expansão dos movimentos sociais, os burgueses e monarquistas reacionários logo reagiram, também 'polarizaram', e o foi o que bastou para AMBOS OS LADOS radicalizarem. Tanto direita quanto esquerda realizaram barbaridades vergonhosas. Mas os mais 'brutais' – os reacionários – venceram.

Os socialistas (termo amplo que pode incluir tanto anarquistas quanto comunistas)(*) não venceram porque não foram tão brutais quanto os reacionários – sejam monarquistas, burgueses, fascistas, etc – sendo estes centralziados e hierarquizados, enquanto aqueles, os socialistas, eram descentralizados e sem liderança. (Aliás, falar em 'líder' anarquista, p.ex., não faz sentido...)

Os monarquistas finlandeses - Guardas Brancos - receberam apoio dos monarquistas alemães, enquanto os falangistas espanhóis receberam apoio dos fascistas italianos e alemães – que haviam sufocado as revoluções em seus próprios países (Mussolini marchou para Roma em 1922, e a revolução alemã foi sufocada em 1923 ).

A Alemanha não tivera 'revolução burguesa' (não ao estilo da francesa, de 1789 a 1799), mas uma 'unificação' (1870/71) por vias militares, sob hegemonia prussiana, numa união de nobres e burgueses contra proletários, em processo arquitetado de 'cima-para-baixo' (bem ao estilo antiparlamentarista de Bismarck), e a mesma Alemanha sufocou a possível 'revolução proletária' – na forma de vários comitês de operários, como é o exemplo da República Soviética da Bavária - que poderia internacionalizar o socialismo e evitar o nacionalismo russo na forma de “estalinismo” (nada mais que 'golpe napoleônico' dentro do próprio Bolchevismo, com a revolução 'devorando seus filhos', e dando lugar para os burocratas partidários da Nomenklatura...)

Assim, a vitória da República de Weimar – com discurso social-democrata, mas favorável aos monarquistas – sobre os movimentos socialistas e comunistas nada mais nada menos que 'pavimentou' o caminho para o Nazismo (dito: Nacional-Socialismo, onde a incoerência começa no nome), quando a Direita – após mastigar a Esquerda - engoliu o Centro.

Na Itália, o ex-socialista Benito Mussolini marchou sobre Roma com um conjunto de militares, populistas, corporativistas, ex-sindicalistas, etc, e obigou a Monarquia a aceitar uma diarquia (poder duplo) Rei – Duce. Governo que se radicalizou eliminando a oposição de Esquerda e de Centro, e colocou os italianos numa guerra total contra os franceses, os anglo-americanos e os russos.

Então por que os russos vermelhos venceram na Rússia? Primeiro, a Primeira Grande Guerra desestabilizou o Tzarismo (Czarismo). Segundo, a experiência dos Sovietes era mais consolidada, a ponto de ser um poder paralelo ao Governo Provisório de Kerenski, claramente burguês e liberal. Terceiro, quando Lênin resolveu levar a revolução adiante – radicalizando em outubro de 1917 – ele foi obrigado a estabilizar o governo novo (do Partido Comunista) como um 'centralismo' – um eufemismo para Ditadura – e decretar de 'cima-para-baixo' – Lênin incorporou uma prática de Bismarck – e apenas afastou os social-democratas, os socialistas-revolucionários e os anarquistas – criando uma 'ditadura do Partido', a vanguarda, que dizia implantar uma 'ditadura do proletariado' (segundo os conceitos de Marx)

E os Bolcheviques venceram os Guardas Brancos porque foram mais 'centralistas' – e por que não dizer tudo? - mais 'brutais' que os 'Brancos'. Olho por olho, dente por dente. Obviamente, disso não poderia sair um Socialismo.

Na Rússia criou uma ditadura unipartidária, centralista e estatista, que mais prejudicou o movimento operário (e os movimentos sociais em geral) do que realmente ajudou. A prepotência de Lênin criou uma divisão entre leninistas e outros socialistas (p.ex. os que seguiam Rosa de Luxemburgo), e a ascensão de Stálin – contra os demais figurões do Partido – criou uma cisão “Estalinistas” versus “Trotskistas”. Nessa divisão, os 'comunistas' se prejudicaram, como é visivel o exemplo trágico da Guerra Civil espanhola.

jan/fev/10

Leonardo de Magalhaens

nota:

(*)o termo 'socialista' é visivelmente ideológico, refere-se aos apoiadores da Democracia Social de forma ampla. Pois encontramos comunistas que se dizem 'socialistas', mas nem todo socialista é comunista; assim como existem os anarquistas que se dizem 'socialistas', mas nem todo socialista é anarquista. E socialista não significa exatamente 'anti-capitalista' (outro termo amplo e genérico) pois um fundamentalista islâmico pode ser 'anti-capitalista' e ser nada 'socialista'. Nem significa que o 'socialismo' seja 'ateísmo', pois muitos se dizem 'socialitas cristãos', ao proclarem Cristo como um libertário, combatendo pelo social, em contraponto a imagem hierárquica dos líderes religiosos (principalemente, o catolicismo com o centralismo da Santa Sé/Vaticano)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Drôle de Guerre - 'os homens não merecem a paz'






dezembro/ 1939



segunda-feira, 18



"Os homens, dizemos – afirmava Maheu em sua última carta -, não merecem a paz. É verdade. Verdade no sentido simples de que eles fazem a guerra. Nenhum dos homens atualmente mobilizados (sem exceção de mim, naturalmente) merece a paz, porque se a merecesse realmente não estaria aqui. - Mas pode ter sido obrigado, forçado... Tá tá tá: ele era livre. Compreendo que ele partiu acreditando que não tinha outro remédio. Mas essa crença era decisória. E por que ele decidiu assim? Aí reencontramos os móveis e a cumplicidade. Por inércia, fraqueza, respeito pelo poder, medo de uma condenação – porque calculou as possibilidades e concluiu que arriscava menos obedecendo do que resistindo – por gosto pela catástrofe – porque sua vida não o prendia bastante (nesse sentido, melhorar sua vida, tanto quanto o permite a natureza do objeto, significa trabalhar pela paz. Conheci alguns que, por terem tido insucesso no casamento, declaravam, em outubro de 1938, que encaravam a guerra com indiferença, sem parecer compreender que sua situação de homens históricos dava peso e consequência a essa indiferença e que ela facilitava o início da guerra – não por fazê-la eclodir, mas por serem cúmplices ) - porque precisava de um grande cataclismo para cumprir sua profissão de homem – por importância, idiotice, ingenuidade, conformismo – por pavor de pensar livremente – porque era um galo de briga. Por isso, na guerra não há vítimas inocentes. Se as houvesse, aliás, elas recomeçariam a guerra por sua própria conta usando mil modos para se tornarem cúmplices no detalhe da sua vida militar. De modo que o mito da redenção adquire aqui toda a sua força moral: a natureza da historicidade é tal, que só cessamos de ser cúmplices tornando-se mártires. Só não merecem a guerra os homens que aceitam o martírio pela paz. Só eles são inocentes, pois a força de sua recusa é bastante grande para suportarem o infortúnio e a morte. Assim, é verdade que, aceitando as consequências da sua recusa, eles sofrem inocentes pelos outros. Não existe, pois, outro modo de assumir nossa historicidade senão tornando-se mártires e redentores. (...)"


Jean-Paul Sartre




trad. Aulyde Soares Rodrigues / 1983

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Drôle de Guerre - a paz-guerra






Drôle de Guerra

trechos do Diário de Jean-Paul Sartre

trad. Aulyde Soares Rodrigues / 1983


terça-feira, 5 dezembro /1939

“... eu anoto as passagens principais de um artigo
de X. publicado na Revue des Deux Mondes de
15 de agosto de 1939: “A Paz-Guerra”.

... “O conceito clássico da guerra conduz, portanto, a
uma forma de conflito que não corresponde às
possibilidades e às necessidades da Europa, atualmente.
A Europa, na verdade, não se refez ainda dos inconvenientes
de todo tipo provocados pela Grande Guerra. Precisa de
paz para se refazer e reorganizar sua economia em
função dos meios modernos de produção... Por outro lado,
a opinião pública, na maior parte das nações europeias,
recusa-se instintivamente a aceitar a ideia da guerra...
Essa convicção é um fato capital peculiar da nossa época.”

...

“Assim, essa repugnância pela guerra total, por uma
transformação surpreendente, autoriza o emprego da
violência que ultrapassa nitidamente as regras da tradição
diplomática... Já não é a paz e ainda não é a guerra que
conhecíamos, mas um estado intermediário que chamaremos
de paz-guerra.

“A paz-guerra repousa na ideia de aproveitar o temor da
guerra-catástrofe para exercer pressões mais enérgicas
do que antigamente, evitando criar uma tensão suficiente
para levar o inimigo à guerra total.

“O primeiro elemento de toda combinação consistirá,
portanto, em avaliar o ponto crítico além do qual o
adversário preferirá a guerra total à capitulação.

“Procedimento característico: guerra política, isto é,
intervenção na política interna do país adversário. Atacam-se
assim diretamente os centros nervosos dos quais depende
a capitulação. (Ludendorff, guerra total: a coesão anímica
da nação é fator essencial da vitória.)” (...)

...

Lendo agora o diário de Sartre, é possível perceber o quanto
o artigo citado está correto.

Pois os Nazistas adotaram justamente estas diretrizes de
'ataque interno' com as 'quintas colunas' alojadas dentro
dos Estados-Nações que eram alvo de ações militares.
Vide o traidor Vidkun Quisling na Noruega, vide a ação
dos franceses reacionários, fascistas, que pregavam o fim da
democracia, ou então os grupos de fascistas de Oswald Mosley
na Grã-Bretanha, que eram favoráveis às negociações com o
Führer Hitler e o temível III Reich.



Leonardo de Magalhaens

http://leonardomagalhaens.zip.net/


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domingo, 24 de janeiro de 2010

Prévias da WW2 - A Guerra Civil Espanhola






Guerra Civil Espanhola (julho 1936 – abril 1939)

Se o General Franco e os militares rebeldes esperavam
derrubar a República com um 'golpe de Estado' estavam
eles um tanto enganados: os espanhóis democratas
resistiram ao avanço fascista, contando com forças de
esquerdas (nem todas democratas, como os comunistas
e anarquistas), o que gerou um conflito de vastas
proporções, sendo lento e sangrento. E exigiu apoio de
estrangeiros: voluntários das Brigadas Internacionais,
forças alemãs, italianas e soviéticas.

Cerca de um milhão de espanhóis – além de voluntários,
de ambos os lados, vindos de outras nações – perderam
a vida nas batalhas e nos massacres de civis. Uma luta
ideológica feroz e sem quartel – contando com o apoio da
infantaria italiana e da aviação alemã (no lado reacionário)
e com a artilharia e forças blindadas soviéticas (no lado
comunista)

Houve radicalismo de ambos os lados – e poucos democratas
foram ouvidos. A República não foi mantida devido ao
ataque externo – os falangistas e monarquistas – e interno –
pois os comunistas e anarquistas não queriam nem República
nem Monarquia, mas sistemas sociais alternativos, a 'ditadura
do proletariado' OU a 'livre autonomia', respectivamente.
(Lembrar do 'racha' entre os próprios comunistas: divididos
entre 'estalinistas' e 'trotskistas'.)

A luta se arrastou – com cidades e vilarejos ora em mãos
fascistas ora em mãos republicanas – que vingavam-se
vergonhosamente quando da re-conquista. (Ambos os lados
se julgavam numa 'cruzada' – onde tudo era permitido e
tolerado, desde que se conquistasse a 'vitória') Assim, os
esquerdistas (republicanos e anarquistas) matavam religiosos,
e os falangistas assassinavam sindicalistas, líderes camponeses,
artistas (o poeta Lorca é um triste exemplo), os comunistas
atacavam anarquistas, em suma, o caos social, uma das
guerras fraticidas mais vergonhosa que o ser humano
pôde testemunhar. (E foi testemunhada! Lá estavam os
escritores Ernest Hemingway, André Malraux, George Orwell,
Pablo Neruda, Saint-Exupéry, além do fotógrafo Robert Capa)

As forças de 'direita' venceram pois souberam se unir apesar
de suas diferenças, enquanto as 'esquerdas' lutaram entre si,
apesar de suas semelhanças: desejavam mais JUSTIÇA
SOCIAL, porém sendo radicais, não souberam apoiar a
democracia republicana (ainda que fosse burguesa), que caiu
aos pés da ditadura fascista do General Franco, militar rebelde.

Além disso, o 'jogo duplo' do ditador Josif Stálin (que não era
nem socialista, nem comunista, mas um sedento pelo poder,
exercido junto com uma burocracia oportunista) acabou por
fraturar a 'esquerda radical', incapaz de construir uma
alternativa às forças reacionárias, que restauram as castas e
injustiças de renda e de decisão, fortalecendo o regime de
exceção.

(Repetiu-se o que aconteceu na Alemanha: os radicais
comunistas se mostraram contrários a República de Weimar,
burguesa e social-democrata, que usou as forças direitistas
para sufocar os esquerdistas, que por fim, se viram sob
um regime ainda pior: o Nacional-socialismo (sic!) de
Adolf Hitler, um monstro a se esconder sob a pele de médico.)
mais sobre a Guerra Civil Española :::::::::